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“Não há doenças da pobreza”. Por uma epidemiologia crítica. Entrevista com Jaime Breilh

por Pietra Soares última modificação 03/08/2017 14:03
“Não há doenças da pobreza. Há doenças da riqueza com desigualdade

. É necessário mudar o ponto de vista, porque, caso contrário, aparecem os pobres como responsáveis das enfermidades. O que o modelo de saúde pública dominante que chama ‘enfermidades da pobreza’ deveria se chamar ‘doenças geradas por um sistema social que necessita da desigualdade’”.

 

O doutor Jaime Breilh é um teórico reconhecido como um dos maiores impulsionadores, desde os anos 1970, de uma nova visão da epidemiologia crítica – ramo fundamental da nova saúde pública – e promotor da aplicação sistemática da categoria “determinação social da saúde”. Suas obras circulam em três idiomas e várias delas estão reconhecidas como clássicos da literatura científica em saúde da América Latina. Estabelece questionamentos essenciais ao modelo de investigação convencional (positivista), ligado ao funcionalismo, e abre caminhos inovadores para a metodologia científica. Estudiosos da saúde pública o consideram um dos quatro teóricos em destaque, da América Latina, no campo da Epidemiologia, junto a Asa Cristina Laurell, Naomar Almeida e Cecilia Donnangelo. A Organização Pan-americana de Saúde incorporou sua obra Epidemiologia Crítica

em seu programa de textos.

 

Eis a entrevista.

 

 

Você fala de epidemiologia crítica, de medicina social e de saúde coletiva. Podemos desenvolver um pouco estes conceitos?

 

 

São nomes distintos para um projeto que foi mudando com o tempo, mas que basicamente se opõe ao conceito de saúde pública imperante. A medicina social está no caminho de Ramón Carrillo, de Salvador Allende... Como ministro da Saúde, Allende publicou A realidade médico-social chilena

, obra sobre a saúde pública com ênfase na medicina social, na qual se destacava claramente que o principal condicionante do nível de saúde de uma população é seu nível socioeconômico. A medicina social busca entender como as condições sociais e econômicas impactam na saúde, assim como sua importância na medicina. E também fomentar as condições nas quais a compreensão possa conduzir a uma sociedade mais sadia. Agora, falamos de saúde coletiva, entendendo saúde como o articulador das características pessoais com os condicionamentos sociais.

 

Por isso, é importante falar em doenças da riqueza com desigualdade, se falamos de diarreia infantil, mal de Chagas...

 

 

É que a saúde pública tradicional não olha o contexto social. Por exemplo, as populações infantis na América Latina estão submetidas a produtos químicos desde a vida intrauterina. Há inumeráveis obras, estudos, trabalhos científicos sobre este tema. Basta recordar a Andrés Carrasco

...

 

Com sua luta contra o glifosato e os problemas que isso lhe trouxe...

 

 

Bem, agora, vejamos as diferenças entre os enfoques da saúde dos quais falávamos no início. A saúde pública tradicional descobre que há muitíssimas crianças anêmicas na América Latina, e as trata com suplementos de ferro. A saúde coletiva, além de tratar a anemia, pede a suspensão das fumigações, busca cortar a causa.

 

Daí sua referência a Carrasco...

 

 

Mas o modelo imperante, o fármaco-biológico, é muito poderoso. Não estuda os problemas de saúde como uma totalidade, mas, sim, o divide por inteiro, e para cada porção tem um medicamento.

 

É um negócio que fecha bem redondinho... As fumigações favorecem sua renda e aumentam as vendas de medicamentos.

 

 

E é assim que as matrizes de poder determinam as potencialidades de defesa e os problemas. A agricultura se torna, então, uma economia da morte por destruição ambiental. Os recursos naturais são tomados apenas como recursos para fazer negócios. Muitas das atividades econômicas atuais, como a mineração extrativista, a agroindústria com transgênicos, estão ligadas a grandes interesses. E tudo se reduz a uma questão de lucros, não há um enfoque ambiental.

 

E voltamos às verdadeiras causas das doenças...

 

 

Sim. É necessário mudar o objeto da saúde. Deve-se trabalhar sobre o processo de enfermidade, como e o porquê as pessoas adoecem. Vou dar um exemplo claro. Uma coisa é estudar a dengue e como combatê-la. E outra muito diferente é entendê-la em relação aos sistemas de produção que fazem com que o vetor prolifere. Os determinantes sociais da saúde são as condições sociais e econômicas que influenciam nas diferenças individuais e coletivas no estado de saúde. São os riscos associados às condições de vida e de trabalho – por exemplo, a distribuição de renda, bem-estar, poder -, mais que fatores individuais - como seria o estilo de vida individual ou a herança genética -, que aumentam a vulnerabilidade para as enfermidades.

 

Então, essa imagem bucólica do campo como um lugar sadio, com a natureza em seu esplendor...

 

 

Já não mais. Já falamos da agricultura da morte. Produz-se o que chamamos fogueira tóxica, que é desencadear os efeitos deletérios do aquecimento global em regiões cada vez menores. Com o uso de agrotóxicos, destrói-se a natureza.

 

E o que justifica essa destruição? Só o desejo de riqueza?

 

 

Sim. A biodiversidade é um péssimo negócio.

 

É verdade... Impede a exploração em grande escala, o trabalho em série... Exige métodos quase artesanais...

 

 

É claro! A monocultura eleva a renda. E também existe o tema da aplicação da tecnologia. A má aplicação vai destruindo a vida, ao destruir a biodiversidade.

 

Mas continua sendo economicamente rentável.

 

 

Já começa a ficar em evidência que não é assim, pelos enormes gastos que a saúde pública exige. Isto demonstra que o atual modelo não serve.

 

Você é reitor da Universidade Andina do Equador. Como a Universidade atua neste contexto? Não se forma igual aos profissionais em esquemas tão diferentes.

 

 

Claro que não. Mas, o tema do modelo universitário é muito mais amplo. Queremos mudar o conceito de riqueza acadêmica. Nem todos os modelos de universidade são igualmente válidos em todas as circunstâncias. Queremos uma universidade aberta à comunidade, que seja uma provedora de pensamento crítico, não uma provedora de dados.

 

Então, é preciso repensar nossas universidades.

 

 

Sim. Nem todos nós temos que parecer ou imitar Harvard. Mas também não vale a atitude fechada de rejeitar ou negar tudo o que venha de Harvard

, que é uma instituição maravilhosa e muito valiosa. Nós propugnamos uma metacrítica do poder capitalista, com a articulação dos “bons saberes”.

 

Que lindo isso de adaptar as universidades a nossas comunidades! É um alívio que haja catedráticos para os quais nossa cultura é valiosa.

 

 

É que eu resgato algo muito importante em nossa América, que é o conceito de resiliência no social e na vida cultural.

 

Tem razão... Mais de 500 anos depois desse genocídio que a cultura dominante chama de Descobrimento, as culturas indígenas na América.

 

 

E suas contribuições têm que ser integradas em nosso corpus acadêmico.

 

Fonte IHU

A entrevista é de Renata Padín, publicada por Página/12, 02-08-2017. A tradução é do Cepat

.

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