UM PASSAGEIRO DA ESPERANÇA
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Era como e o seu Deus não fosse onipotente. Como se tivesse dado a homens e mulheres o direito de definir seus destinos. Dom Helder sempre acreditou neles, como agentes transformadores da história. Na sua vivência, Criador e criatura caminhavam juntos. Enfrentou "problemas absurdos", assim dizia, mas sempre os compartiu com aqueles que estavam a seu lado. |
Seu otimismo, para quem não o conhecia, chegava a parecer exagerado. Sua fé plural contagiava os que não tinham fé, ou duvidavam dela, ou já a haviam perdido. E tinha um jeito especial de traduzir essa convivência em gestos fraternos. Encarava os desafios com paixão. Quanto mais grave o problema, mais apaixonado se mostrava. Frágil no corpo, era um homem de alma leve. Os desafios, em vez de arrefecer aquele corpo franzino, como que lhe davam forças. Tinha sempre, para aqueles que o cercavam, palavras de esperança. Palavras que só podem ser ditas por quem carrega essa esperança no seu íntimo. Às vezes dizia "há momentos em que, tendo medo, não se pode demonstrar que tem". É que talvez nunca o tivesse mesmo tido. Ou talvez pressentisse ser o o duro preço a pagar pelas escolhas feitas. Ou talvez apenas visse para além do seu tempo. Aprendeu com o passado, viveu intensamente o presente, mas, sobretudo tinha os olhos e o coração no futuro.
Segundo teólogos respeitáveis, como Leonardo Boft, é o verdadeiro pai de uma teologia bem nossa, de compromisso com os oprimidos. De libertação. Teve presença inspiradora no Concílio Vaticano II, que procurou dar à Igreja um rosto mais próximo à realidade humana. Foi um combatente da liberdade, nos anos de chumbo do autoritarismo. Passou por todas as amarguras, e não era um homem amargo. Nunca perdeu a ternura. Fim de tarde e perguntei se não se considerava degredado no Recife, longe dos centros de decisão da Igreja. A resposta foi pronta: "O maior problema da Igreja são hoje os pobres, a América Latina é o centro desse problema, o Brasil é o maior país da América Latina e o Nordeste a região mais pobre do Brasil. Logo, estou no lugar certo". Era "irmãos dos pobres e meu irmão", assim disse João Paulo II.Que seu compromisso maior era com os deserdados. E traduziu esse amor com gestos concretos de fé. Por tudo que fez, o maior legado de dom Hélder é a marca de exemplo. Seus passos de pastor estão marcados na areia da história. Como um caminho.
José Paulo Cavalcanti Filho
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Dom Helder conversa com crianças numa favela do Rio de Janeiro acompanhado pelo então cardeal, Montini, futuro papa Paulo VI |

