Campanha da Fraternidade 2020: vencer o vírus da indiferença

Pe. Antonio Aparecido Alves.
Mestre em Ciências Sociais (Gregoriana/Roma) e
Doutor em Teologia (PUC-Rio).
Pároco na Paróquia São Benedito do Alto da Ponte.

A cada ano a Quaresma é enriquecida com a Campanha da Fraternidade, uma iniciativa da Igreja do Brasil, através da CNBB, que começou tímida, em 1962, na Diocese de Natal e, a partir de 1964, foi assumida em nível nacional. Longe de ofuscar o sentido da Quaresma, como esbravejam algumas vozes isoladas, ela o potencializa, assim como o tema da festa do Padroeiro não obscurece, mas sim enriquece a Novena que fazemos na Paróquia e nos ajuda a vivenciá-la bem.
Neste ano a Campanha vem nos questionar a respeito da Vida, temática que já esteve presente em outras, mas com enfoques diferentes, o que indica uma certa continuidade no tempo, embora o período intensivo da campanha seja relativamente curto. A presente Campanha apresenta a vida como Dom e Compromisso. Ela é dom, porque Deus no-la deu livremente, uma vez que nenhum de nós pediu para nascer. Como afirma o Texto-Base, citando Dom Bosco: “Deus nos deu a vida de presente, e o que fazemos com ela é o nosso presente para Ele”. A vida é, também, compromisso, pois devemos cuidar da vida de todos e do planeta.
Na quarta-feira de cinzas nós rezamos a Coleta da Missa pedindo que a prática da penitência quaresmal nos ajudasse a vencer o espírito do mal. De fato, a conversão não é somente deixar de fazer coisas erradas, mas é algo que envolve o coração, o mais profundo e íntimo de nós, como indicava a primeira leitura dessa liturgia (Joel 2,12-13). Isto implica uma mudança de mentalidade e renovação interior, como nos diz o vocábulo grego metanoia (μετάνοια) utilizado no Novo Testamento e traduzido para o latim como conversão ou arrependimento.
Existe, hoje, um vírus tão letal quanto o coronavirus, que é o da “indiferença”. Em Lampedusa (Itália), diante do drama dos refugiados, o Papa Francisco alertou o mundo sobre a sua existência: “Quem é o responsável pelo sangue destes irmãos e irmãs? Ninguém! Todos nós respondemos assim: não sou eu, não tenho nada a ver com isso; serão outros, eu não certamente. /…/ Hoje ninguém no mundo se sente responsável por isso; perdemos o sentido da responsabilidade fraterna; caímos na atitude hipócrita do sacerdote e do levita de que falava Jesus na parábola do Bom Samaritano”. É este vírus da indiferença que esta Campanha nos ajuda a combater, é esta a mudança de mentalidade que nos é proposta para a conversão quaresmal, a fim de que iniciemos uma verdadeira revolução do cuidado.
O ícone deste chamado à conversão é o samaritano, que costumamos adjetivar como “bom”, mas que Jesus chama simplesmente de “um samaritano” (Lc 10, 25-37) na parábola à qual responde a pergunta do doutor da Lei: “Quem é o meu próximo?”. Esse samaritano viajante vê o homem caído à beira do caminho e sente compaixão, interrompe sua viagem e lhe dá um atendimento emergencial, para depois levá-lo a uma hospedaria para que receba cuidados mais qualificados, pelo que paga adiantado. Além disso, recomenda ao dono da hospedaria para que não economize recursos no cuidado com o homem pois, se gastar a mais, ele o reembolsará quanto retornar.
Antes desse samaritano solidário, haviam passado por ali duas pessoas, um sacerdote e um levita, pessoas certamente muito religiosas. No entanto, sua religiosidade não foi suficiente para abrir os seus olhos para o drama daquele que jazia na estrada e, por isso, indiferentes com aquela situação, passaram adiante, talvez apressados para chegar ao templo. É bom recordar, a propósito, o ensinamento de Santo Tomás de Aquino, citado pelo Papa Francisco na Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate, de que uma obra de misericórdia é mais importante para agradar a Deus, do que os atos de culto (n. 106-107). Aliás, na Bula de proclamação do Ano da Misericórdia, Misericordiae Vultus, ao comentar o evangelho de Mateus 25, 31-46, o mesmo Pontífice afirmou: “Não podemos escapar às palavras do Senhor, com base nas quais seremos julgados” (n. 15)
Ter os olhos abertos para o drama das pessoas, perceber a realidade com compaixão e entrar na lógica do cuidado, eis o chamado desta Campanha. Na homilia da missa em Lampedusa, o Papa Francisco afirmou que a “cultura do bem-estar leva à indiferença a respeito dos outros; antes, leva à globalização da indiferença. Neste mundo da globalização, caímos na globalização da indiferença”. Eis a mentalidade a ser mudada, eis o que deve ser consertado em nosso coração, eis o espírito do mal a ser combatido nesta quaresma.
Por fim, se o ícone da Campanha da Fraternidade neste ano é o samaritano solidário, o seu exemplo é Santa Dulce dos Pobres, como está evidenciado no cartaz, onde ela está na rua e ocupa o centro de um grupo de pessoas em situação de necessidade. Esta mulher, frágil e humilde, com pequenos gestos foi realizando uma grande obra, no cuidado com os mais vulneráveis da Bahia. Poderia ter sido colocado no centro do cartaz um santo mais famoso e conhecido, como Madre Tereza de Calcutá, Santa Paulina, São Vicente de Paulo, São Francisco de Assis ou outros. Porém, foi colocada essa mulher, muito próxima de nós, como que indicando que está ao nosso alcance fazer o que ela fez. Basta vencer o vírus.

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