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Congresso é a base do atraso

por Pietra Soares última modificação 24/07/2017 09:44
Não é um acaso que as principais representações parlamentares hoje em operação se identifiquem com signos da violência / Wilson Dias/Agência Brasil
Fora Maia. Não se pode descuidar da busca de união em torno das eleições diretas. Não há saída fora dela para a democracia brasileira. Essa certeza vem sustentada por vários argumentos afirmativos, sobretudo a retomada da soberania popular estuprada pelo golpe, mas tem também um viés preventivo: a defesa contra um congresso incapaz de representar os interesses do país.

Grau zero da reconquista da institucionalidade, as diretas são também um desafio para o sistema político. Afinal, como garantir que a vontade popular não vá ser distorcida por uma representação tão perniciosa como a que hoje ocupa o parlamento, tanto na Câmara quanto no Senado? Como em Romeu e Julieta, de Shakespeare, “uma maldição caiu sobre as duas casas”. O país se tornou joguete nessa tragédia.

O pior congresso que o dinheiro pode comprar vem dando mostras continuadas de sua atuação. Desde a aprovação da reforma trabalhista até as negociações para blindar o presidente golpista e outras figuras menores como Aécio, tudo que emana do legislativo cheira a jogo de interesses. Pode ganhar a tradução sem metáforas da retirada explícita de direitos ou a simbologia detestável do reacionarismo moral, para atender parte do compromisso com outros fiadores do atraso.

As movimentações recentes no condomínio do poder, disputando corpo a corpo a dissidência do PSB, colocaram em campo o apetite de hiena do PMDB e DEM, nas figuras de seus próceres mais destacados. Temer e Maia combatem com as armas que sempre manipularam, para reforçar suas bancadas e definir o cacife no comando da direita. Num caso se trata de sobrevivência, do outro de ganância.

Não é um acaso que as principais representações parlamentares hoje em operação se identifiquem com signos da violência, da concentração de renda e do atraso. Bancada da bala, do boi e da bíblia são grupos que reúnem em seu conjunto uma massa confiável à manipulação, desde que preservados seus interesses próprios. A ideologia, no caso desses deputados e senadores, é apenas uma consequência de seus apetites e de seu preconceito e ignorância.

Fora de seu território defeso, congregam a massa de manobra dos projetos financistas, entreguistas e moralistas. Militam contra o trabalho, contra a liberdade, contra a distribuição de renda, contra os projetos sociais e os interesses nacionais. Compreendem a educação e saúde como negócio. Estão do lado das corporações da mídia hegemônica e se beneficiam da reprodução quase natural de suas candidaturas pelo poder do financiamento privado.

Por isso é bom prestar atenção na informação que vem circulando, atribuída ao professor de filosofia da USP, Renato Janine Ribeiro, ex-ministro da educação de Dilma Rousseff, que estaria preparando o lançamento de candidaturas comprometidas com a educação. A ideia, ao que parece, é a de aprimorar a composição do congresso, com a eleição de educadores e especialistas em educação, para levar adiante essa que é uma das grandes questões do país.

Com deputados que conheçam o desafio da educação, o tema poderia sair do imediatismo das propostas reformistas ligadas aos interesses do mercado para ganhar um patamar de debate maduro e consequente. Janine é um dos mais preparados pensadores brasileiros, tanto em temas educacionais como políticos, além de se destacar pela disponibilidade ao diálogo em bases racionais. Ao apontar para a necessidade de qualificar o parlamento, evidencia crença na democracia e uma vertente estratégica que precisa ser considerada.

Quem sabe, mesmo premido pela urgência da conjuntura, não seja o momento de começar a construir as bases de um novo legislativo? O atual já mostrou, em sua maioria, a incapacidade de conviver com princípios democráticos, republicanos e éticos. Preparar a nova composição significa um trabalho de base, de reconhecimento de prioridades, de construção de candidaturas afinadas com os desafios brasileiros.

Em vez de bancada da bala, bancada dos direitos humanos. No lugar da bancada do boi, uma bancada da economia solidária e da agricultura familiar sustentável. Sai a bancada da bíblia para dar lugar à bancada em defesa da liberdade e dos direitos das minorias. Abre-se ainda caminho para bancadas da saúde pública, da educação pública de qualidade, dos movimentos sociais, da diversidade cultural, da nacionalização das riquezas estratégicas.

Não basta mais acusar o outro, qualquer que seja ele, do sistema ao mercado; do governo à exploração de classe. A urgência da luta para a construção de um país mais justo indica que é preciso marcar um encontro com nós mesmos. Pode começar como autocrítica – sempre necessária – , mas precisa ter o apetite para conquistar democraticamente os instrumentos de poder. Em todas as instâncias.

Fonte Brasil de Fato

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