“CRISE DO ESTADO NÃO É PRIVILÉGIO DO BRASIL”, DIZ PRESIDENTE DA CNBB
Crise do Estado, Reforma Política, liberação dos bingos e assassinato do padre Ruggero Ruvoletto, em Manaus, foram alguns dos assuntos sobre os quais a Presidência da CNBB falou aos jornalistas em coletiva de imprensa, nesta quinta-feira, 24. A coletiva aconteceu após o encerramento da reunião do Conselho Episcopal de Pastoral da CNBB (Consep), iniciada na terça-feira, em Brasília.

Para o presidente da CNBB e arcebispo de Mariana (MG), dom Geraldo Lyrio Rocha, a crise de Estado é global e não constitui um “privilégio” do Brasil. “Percebemos aqui no Brasil a intromissão dos poderes em que um entra no assunto do outro. Isso causa um mal estar na relação social entre o Executivo, Legislativo e Judiciário, e nós, cidadãos, ficamos expostos a tudo isso. Por isso há necessidade de uma reforma política profunda”, afirmou.
Sobre a crise no Senado Federal, dom Geraldo Lyrio ressaltou que não cabe à Igreja fazer julgamentos de pessoas. “Fatos isolados não nos dão direito de julgar as pessoas. Os fatos que vêm à tona não nos dão base para dizermos quem está certo ou errado”, disse.
Na mesma direção, o secretário geral da CNBB, dom Dimas Lara Barbosa, afirmou que a crise do Senado é apenas o “pano de fundo” para a urgência de uma reforma política. “Não apenas reforma política, mas, se possível, de todos os setores sociais, para crescermos consolidados e fortes como nação”, defendeu.
A CNBB, por deliberação de seu Conselho Pastoral, constituiu um grupo de trabalho, formado por bispos e assessores, para elaborar um documento a respeito do assunto. “O documento terá como objetivo mostrar que a Igreja está atenta ao que acontece na política do nosso país e levar ao cidadão a nossa preocupação”, afirmou dom Dimas.
Liberação dos bingos
A Presidência da CNBB reafirmou a preocupação da Igreja com o projeto que libera os bingos eletrônicos e outros jogos de azar, já aprovado na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara. “Isto é um retrocesso. A legalização dos bingos é um retorno a um mal já superado e coloca em risco a segurança e o bem estar das famílias, submetendo à exploração tantas pessoas”, disse dom Geraldo. “Os jogos acontecem num campo fértil para a proliferação de vários crimes”, completou.
O
presidente da CNBB rebateu a argumentação liberação dos bingos aumenta
o emprego no país. “Os defensores do projeto dizem que serão abertos
300 mil novos postos de emprego. Essa justificativa é um sofisma. Não é
porque que se estimula emprego que se vai estimular o crime. O tráfico
dá emprego para muita gente, nem por isso vamos estimular o tráfico”,
disse.
Divórcio facilitado
Dom Geraldo ressaltou, também, a posição da CNBB expressa em nota a respeito do projeto que acelera o processo do divórcio. “A Igreja não é a favor do divórcio em contexto nenhum, mas percebe que esta facilitação torna tão rápida a possibilidade de concretizar o divórcio que o casal não tem tempo suficiente para perceber as conseqüências de sua decisão. Esta facilitação não é saudável para a situação do casal, dos filhos e da instituição familiar”, disse.
Para dom Dimas a Igreja deve reforçar o trabalho de evangelização da família. “Isso (facilitação do divórcio) nos alerta que não podemos ficar apenas no plano jurídico ou na discussão parlamentar, mas devemos nos desdobrar no anúncio dos valores da família cristã, valorizando ainda mais a Pastoral Familiar”, observou.
Segundo dom Dimas, o posicionamento da Igreja diante desta discussão parlamentar “entra como nossa participação cidadã na continuidade de como vemos a família cristã”.
Ficha Limpa
“Estamos muito orgulhosos com a conquista dessas 1 milhão e 300 mil de assinaturas”, exclamou dom Dimas a respeito da conquista do total de assinaturas arrecadadas pela Campanha Ficha Limpa que propõe o Projeto de Lei de Iniciativa Popular sobre a vida pregressa dos candidatos.
De acordo com o secretário geral da CNBB, a Igreja participou de forma cidadã da Campanha para que, nas próximas eleições, políticos com a ficha suja, permaneçam fora do pleito eleitoral.
Segundo dom Dimas, o recolhimento deste “caminhão” de assinaturas demonstra que a população está “cansada de ver pessoas desonestas nos representando no Congresso Nacional”.
As assinaturas serão entregues ao presidente da Câmara, deputado Michel Temer, na terça-feira, 29, às 11:30h, dia em que a primeira lei de iniciativa popular, a 9.840, completa 10 anos. Vários parlamentares já manifestaram apoio ao Projeto.
Assassinato em Manaus
O vice-presidente da CNBB e arcebispo de Manaus, dom Luiz Soares Vieira, disse aos jornalistas ter recebido uma carta do papa Bento XVI onde o pontífice expressa toda a sua dor e indignação pelo assassinato do padre italiano Ruggero Ruvoletto, que trabalha há dois anos em sua arquidiocese, em Manaus. Dom Luiz deu alguns detalhes do assassinato e disse ter chegado ao local do crime antes da polícia.
“O crime aconteceu sábado passado, às 7:10h. O padre morava com outro sacerdote e um diácono na casa paroquial. E segundo relato dos dois, foi ouvido um estampido. Ao chegarem ao quarto do padre Ruggero, viram o religioso ajoelhado, como se estivesse rezando, com a cabeça sobre um travesseiro todo ensanguentado”, contou dom Luiz.
O arcebispo explicou que a região onde morava o padre assassinado é muito violenta e citou outros crimes bárbaros ocorrido no bairro. Dom Luiz disse se sentir envergonhado por essa situação, classificada pelo papa de “crime vil e bárbaro”.
Segundo dom Geraldo Lyrio, o assassinato do padre Ruvoletto envergonha o Brasil. “Este crime nos envergonha e nos humilha. Temos que lutar a favor da vida”, disse.
Fonte:CNBB

