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''MEMÓRIA E MISSÃO'': EXPERIÊNCIAS DE UMA CAMINHADA JUNTO À IGREJA-POVO DE DEUS. ENTREVISTA ESPECIAL COM JOSÉ ERNANNE PINHEIRO

por Pietra Soares última modificação 25/01/2010 22:19

 

"Memória e missão. Memória da Vida e da Missão. Memória da caminhada, num período determinado da Igreja e da sociedade, explicitando experiências de vida no horizonte da missão".

Com essas palavras, José Ernanne Pinheiro, sacerdote cearense há mais de 50 anos, abre seu livro "Memória e Missão: Experiências de vida" (Paulinas, 2009). Assessor da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e secretário executivo do Centro Nacional Fé e Política "Dom Helder Câmara" (Cefep), Ernanne acompanhou os desenvolvimentos do Concílio Vaticano II, quando morava em Roma. Trabalhou como operário metalúrgico na França. Regressando ao Brasil, atuou durante 19 na arquidiocese de Olinda e Recife, ao lado de Dom Helder Câmara. E vivenciou a repressão da ditadura sobre alguns de seus colegas padres, como o assassinato do Padre Antônio Henrique Pereira Neto.

"Na dialética do joio e do trigo, gostaria que estas páginas pudessem ajudar as jovens gerações a discernir por onde passa o Espírito na história do nosso povo", afirma. Com mais de 70 anos de vida e 50 de sacerdócio, Pe. Ernanne , em entrevista à IHU On-Line, por email, afirma não estar preocupado com "os resultados imediatos". Sua prioridade – e essa é um dos objetivos da publicação do livro – é a formação de pessoas, "um trabalho lento e exigente".

José Ernanne Pinheiro é natural de Jaguaretama (CE). Formou-se em filosofia no Seminário da Prainha, em Fortaleza, e em teologia na Universidade Gregoriana, em Roma. Durante 19 anos, foi coordenador da Pastoral e Diretor do Instituto de Teologia do Recife (ITER). A partir de 1986, ocupou o cargo de assessor da CNBB no Setor dos/as Leigo/as e na Assessoria Política. É diretor do Centro Cultural Missionário (CCM) e secretário executivo do Centro Nacional Fé e Política "Dom Helder Câmara", com sede em Brasília.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Em seu livro "Memória e missão", o senhor destaca que sempre tentou "corresponder às questões levantadas pelos sinais dos tempos, em sintonia com a renovação conciliar". Nesse sentido, o que o levou a escrever o livro?

José Ernanne Pinheiro – Primeiro, a geração do Vaticano II viveu um momento tão rico, chamado mesmo de primavera da Igreja, que não podemos deixar de transmitir para as novas gerações nossas experiências. Fui ordenado padre, na minha terra natal, no interior do Ceará, três dias antes do término do Concílio.

 

"A reflexão eclesiológica do conclave nos colocou diante de exigências de um novo tipo de presbítero para responder ao novo modelo de Igreja: Igreja-Povo de Deus"

Segundo, a reflexão eclesiológica do conclave nos colocou diante de exigências de um novo tipo de presbítero para responder ao novo modelo de Igreja: Igreja-Povo de Deus; diversificação dos ministérios nas comunidades, o que o padre Yves Congar chamou de Eclesiologia total. Tentei, no livro, mostrar que há várias maneiras do exercício do ministério numa perspectiva missionária, sem nenhuma pretensão de ensinar. Logo na introdução, explicito: "Na dialética do joio e do trigo, gostaria que estas páginas pudessem ajudar as jovens gerações a discernir por onde passa o Espírito na história do nosso povo".

IHU On-Line – Quais episódios principais de sua vida e missão o senhor destacaria aos nossos leitores?
 
José Ernanne Pinheiro –
Uma das grandes novidades do Vaticano II, que me marcou profundamente, foi a  preocupação com os pobres. Falava-se da urgência da pobreza da Igreja, da presença dos pobres na e como Igreja, da promoção dos pobres... Na América Latina, insistimos na necessidade de serem eles sujeitos da história, sujeitos da evangelização. João XXIII, na abertura do evento, diz que "a Igreja é de todos mas sobretudo dos pobres". O cardeal Lercaro, de Bolonha-Itália, o grande ídolo da Liturgia, assim se expressou: "Se o Concílio Vaticano II não levar em consideração o grande apelo dos pobres, não cumpriu sua missão".

Depois, a presença entre nós, no [Pontifício Colégio] Pio Brasileiro [instituição para a formação do clero da América Latina], de padres operários como Paul Gauthier, operário em Nazaré, que chegou a elaborar a minuta de um documento para o Concílio: "A Igreja e os pobres" marcava muito a nossa geração. Por isso, vários de nós fizeram experiências como operários de fábricas ou nos "kibutz" de Israel.

Para responder a essa expectativa, o Papa Paulo VI escreveu a Encíclica "Populorum Progresso" – a Igreja no chamado Terceiro Mundo –, após o Vaticano II, como complemento à "Gaudium et Spes", que considerava mais o mundo moderno. Está aí a base da opção pelos pobres na Igreja da América Latina, os pobres evangelizando os pobres, como nas Comunidades Eclesiais de Base.

IHU On-Line – O senhor viveu em Roma durante as sessões do Concílio Vaticano II, considerando esse período como "uma riqueza na vivência eclesial". Qual a sua avaliação sobre o Concílio e seus debates? E hoje, mais de 40 anos depois, como o senhor vê a vida da Igreja à luz do Vaticano II?

José Ernanne Pinheiro – Na minha leitura, o Concílio Vaticano II foi um novo Pentecostes para a Igreja. Inclusive legitimava todo o esforço de renovação dos últimos 50 anos. É certo que as experiências de alguns países marcaram mais o evento: a França, a Alemanha, a Bélgica... Só que essa renovação se irradiava.

 

"Mais de 40 anos depois! O clima primaveril passou mas, sem dúvida, as marcas do Concílio estão ainda visíveis"

No caso do Brasil, são muitos os canais que prepararam o terreno para que a semente caísse em terra boa: a ação católica especializada, numa nova teologia da missão (nos meios sociais); uma nova visão da liturgia (centralidade de Jesus Cristo, sentido de assembleia, participação do povo, valorização dos símbolos); uma eclesiologia do Corpo Místico, nos tornando todos corresponsáveis como Igreja, na variedade de carismas; uma nova catequese com fundamentos bíblicos... Na América Latina, as Conferências episcopais latino-americanas foram um grande veículo para difundir esse clima de renovação.

É certo que nem todos os países e nem todas as Igrejas conseguiram preparar o campo para a missão; daí os perplexos diante do novo, os derrotistas como "profetas do desastre"; os fundamentalistas que não perceberam os novos ares que arejavam os meandros das Igrejas... Uma onda de pessimismo temeu a encarnação de Cristo na modernidade e ficou apavorada.

Mais de 40 anos depois! O clima primaveril passou mas, sem dúvida, as marcas do Concílio estão ainda visíveis. No Brasil, a missão evangelizadora da Igreja na defesa e promoção dos direitos humanos continua, embora mais enfraquecida. As Diretrizes da Igreja permanecem no mesmo horizonte, embora não tenhamos mais personalidades proféticas que deram um tom específico nos momentos mais complexos, tais como os bispos Lorscheiter (Ivo e Aloísio), Dom Helder Câmara, Dom [Antônio Batista] Fragoso e tantos outros (bispos, presbíteros e leigos).

IHU On-Line – Em pelo menos dois momentos de sua vida, o senhor contou com a presença de duas figuras importantes, nas pessoas do Pe. Oscar Mueller e de Dom Helder Câmara (foto). Que importância eles tiveram em sua vida?

José Ernanne Pinheiro – As figuras do Padre Oscar Mueller e de Dom Helder Câmara fazem parte das nuvens de testemunhas de que fala a carta aos Hebreus. Com estilo bem diferentes, os dois foram muito importantes em minha vida.

Padre Mueller era um grande irmão, "un grand frére" (como dizem os franceses). Um homem livre que acreditava piamente na palavra evangélica: "A verdade vos tornará livres". Passava pela nossa vida fazendo o bem.

Já Dom Helder era um divisor de águas. O fato de trabalhar com ele já criava exigências, embora nos colocasse sempre em atitude de esperança. Um profeta criativo e provocador.

IHU On-Line – Como foi a sua experiência de operário metalúrgico na França? Como o senhor conseguiu conjugar a realidade profissional e trabalhista com sua vocação ao sacerdócio?

José Ernanne Pinheiro – Embora já tivesse terminado o curso de teologia, no momento do estágio eu não era ainda presbítero. Por que a ideia de um estágio no meio operário?

O clima do Vaticano II propunha um novo tipo de padre para melhor responder às exigências da nova eclesiologia - mais próximo do povo. A sensibilidade aos pobres crescia na Igreja, fortalecendo a convicção de que o ministério presbiteral deve estar mais próximo dos pobres como Jesus de Nazaré. Padre Mueller era a favor da ideia de adiarmos a ordenação para uma opção mais amadurecida para o sacerdócio.

 

"Dom Helder era um divisor de águas. Ele sempre nos colocava em atitude de esperança. Um profeta criativo e provocador"

Meu objetivo, ao procurar esse estágio, era conhecer o meio operário da França – suas organizações, conflitos e esperanças. Pretendia trabalhar, depois, no Brasil, nessa perspectiva. Seria, também, uma oportunidade para conviver com uma equipe de padres operários – conhecer melhor sua espiritualidade, seu estilo de vida.

Éramos cinco membros na equipe da Mission de France (MdF) – a organização da Igreja da França para o mundo descristianizado – numa cidade operária chamada Chauny, no norte da França. Os padres eram os responsáveis pela paróquia e trabalhavam como operários. Nesse ambiente, tudo era novo para mim, desde a língua, os costumes cotidianos, a visão eclesiológica dos padres da MdF, a perspectiva do trabalho braçal.

A cidade tinha uns 15 mil habitantes, com 12 fábricas grandes e outras menores. A fase mais complexa, no primeiro momento francês, foi conseguir emprego, já naquele tempo. A peregrinação junto às fábricas me fez passar por uns 15 estabelecimentos. Estava difícil encontrar vaga. Meu primeiro emprego, com perspectiva de estabilidade, foi numa fábrica de móveis. Mas infelizmente só fiquei um mês ali. Fui afastado. Havia em todos os postos da fábrica um grande número de estrangeiros/as. O próprio contramestre era holandês, o pivô da minha expulsão.

Depois, consegui trabalhar numa fábrica de metalurgia durante 11 meses: dez horas por dia carregando caminhão na expedição da fábrica. Muito rico o relacionamento com os operários/as, como descrevo no livro. Agradeço a Deus por essa experiência.

IHU On-Line – Em 1969, o senhor acompanhou o assassinato do Pe. Antônio Henrique Pereira Neto (foto). Pode nos contar um pouco mais sobre a vida e a importância desse sacerdote para o contexto eclesial brasileiro?

José Ernanne Pinheiro – Padre Antônio Henrique Pereira Neto era um jovem sacerdote da arquidiocese de Olinda e Recife. Fez os estudos no seminário de Olinda, com especialidade em psicologia, nos Estados Unidos. Dedicou-se de corpo e alma à educação e à evangelização da juventude. Tinha uma metodologia de trabalho muito típica: seu campo de atuação prioritário era atingir o jovem no final do segundo grau e nos primeiros anos da universidade – momento fulcral para a definição do projeto de vida.

Para tanto, ele realizava atendimento pessoal, reunião em grupo e, também, encontros desses jovens com seus pais para troca de ideias entre as gerações. Acompanhava um grande número de grupos com muita criatividade. Padre Henrique dava também assistência a pequenos grupos de drogados.

No dia 26 de maio de 1969, após participar de uma reunião de jovens com os seus genitores, saiu dizendo que tinha ainda outro compromisso. No dia seguinte, apareceu morto ao lado da cidade universitária.

Uma das interpretações é que um dos jovens drogados, dos grupos que ele assistia, serviu de isca para encontrá-lo. Sem dúvida, queriam atingir Dom Helder e o movimento estudantil, ainda forte em Recife. Parecia incrível a notícia. Ao constatar a verdade, Dom Helder ficou perplexo, mas extremamente sereno.

Partindo do cemitério onde o localizou, Dom Helder tomou algumas providências, prevendo a repercussão política da morte do seu padre. Planejou todos os passos do velório e do enterro. A declaração que leria na celebração de corpo presente. em nome do Governo Colegiado da Arquidiocese, teve grande repercussão.

Alguns aspectos dessa declaração mostram o clima em que vivíamos:

"O que há de particularmente grave no presente crime, além dos requintes de perversidade de que se revestiu (a vítima, entre outras sevícias, foi amarrada, enforcada, arrastada e recebeu três tiros na cabeça) é a certeza prática de que o atentado brutal se prende a uma série preestabelecida e objeto de ameaças e avisos. Houve, primeiro, ameaças escritas em edifícios, acompanhadas, por vezes, de disparos de armas de fogo. O Palácio dos Manguinhos recebeu numerosas inscrições. O Secretariado de Pastoral foi alvejado. A residência do Arcebispo, na igreja das Fronteiras, alvejada e pichada. Vieram, depois, ameaças telefônicas com o anúncio de que já estavam escolhidas as próximas vítimas. A primeira foi o estudante Cândido Pinto Melo, quartanista de engenharia e Presidente da União dos Estudantes de Pernambuco. Acha-se inutilizado com a medula seccionada. A segunda foi o jovem sacerdote, cujo crime exclusivo consistiu em exercer apostolado entre os estudantes. Como cristãos e a exemplo de Cristo e do protomártir Santo Estevão, pedimos a Deus perdão para os assassinos, repetindo a palavra do mestre: 'Eles não sabem o que fazem'. Mas nos julgamos no direito e no dever de erguer um clamor para que, ao menos, não prossiga o trabalho sinistro desse novo esquadrão da morte. Que o holocausto do Padre Henrique obtenha de Deus a graça da continuação do trabalho pelo qual doou a vida, e a conversão dos seus algozes".
 
IHU On-Line – Sua participação na pastoral católica sempre foi muito marcante, como podemos ver pelo seu livro, especialmente nas questões políticas, operárias e de direitos humanos. Que frutos o senhor pode dizer que colheu nesse sentido?

José Ernanne Pinheiro – Dentro da metodologia da ação católica – ver, julgar e agir – com sua revisão de vida, tão difundida no Brasil e assumida nos próprios documentos oficiais, não nos preocupamos com os resultados imediatos. Damos prioridade à formação de pessoas, um trabalho lento e exigente. E acreditamos que uma formação sólida pode ir longe pela mística que envolve a pessoa ou grupos em co-responsabilidade eclesial e sensibilidade para a transformação da sociedade.

 

"Dentro da metodologia da ação católica – ver, julgar e agir –, não nos preocupamos com os resultados imediatos"

IHU On-Line – O senhor também acompanhou grande parte da vida da CNBB como seu assessor. Como o senhor vê a importância da CNBB dentro do contexto político-social brasileiro?

José Ernanne Pinheiro – A Igreja Católica no Brasil tem uma rica história de compromisso político-social. Com a criação da CNBB, em 1952, essa missão teve a chance de ser mais articulada. Especial atuação em defesa da democracia aconteceu no período da ditadura militar. Vivíamos momentos delicados: o Vaticano II abria portas e janelas para entrar ar novo de renovação, e éramos condicionados internamente no país.

Muitos cristãos leigos/as e presbíteros foram exilados, presos e mesmo mortos pela causa da justiça. Vários bispos, bloqueados na sua missão por causa do mesmo compromisso. No entanto, foi exatamente nesse momento em que a CNBB atuou de forma mais profética, criando a CPT (pastoral da terra), o CIMI (missão junto aos indígenas), nascimento das CEBs (Comunidades Eclesiais de Base). Com a volta à democracia, tivemos dificuldade em nos colocar diante dos novos rumos de mudanças tecnológicas; e sobretudo com a carência de lideranças mais fortes na perspectiva profética. Estamos procurando o horizonte.

IHU On-Line – Após 70 anos de vida e quase 50 anos de sacerdócio, que sonhos e expectativas o senhor tem com relação ao Brasil e à Igreja?

José Ernanne Pinheiro – Sonho com um Brasil mais justo, com uma Igreja mais evangélica. Acredito nas minorias abraâmicas, nas pegadas de Dom Helder, aqueles que esperam, apesar de todos os percalços. "A esperança não decepciona", nos lembra São Paulo. "Quanto mais negra a noite, mais carrega em si a madrugada", dizia Dom Helder, quando conseguiu, enfim, se expressar pela imprensa, após sete anos de silêncio obrigatório.

(Reportagem de Moisés Sbardelotto)

Fonte: www.ihu.unisinos.br

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