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‘TRÁFICO DE PESSOAS NÃO É UM CRIME COMETIDO POR POBRES’, DIZ FUNDADORA DA ORGAN TRAFFIC

por Pietra Soares última modificação 30/03/2010 09:08
Tatiana Félix *

Os mitos que envolvem o tráfico de órgãos, uma das modalidades mais cruéis do tráfico de seres humanos, podem ser mais reais e assustadores do que se parece. Em diversas cidades brasileiras, e também em outros países, entidades como a Organ Traffic, fundada pela irmã Maria Elilda dos Santos, que atua no combate ao tráfico de órgãos, exemplificam as mais desumanas situações deste crime hediondo.

Córneas e rins são retirados de pacientes internados em hospitais públicos; crianças são bem tratadas em cativeiro para depois serem retaliadas; adolescentes e jovens são raptados para servirem ao comércio ilegal de órgãos. Os casos são muitos. "Já foi encontrado só o tronco de uma pessoa. Não tinha perna, braço, nada. Tiraram todos os membros", relatou Elilda.

No final de fevereiro, o Movimento Internacional de Combate ao Trafico de Órgãos Humanos, liderado pela irmã, recebeu uma denúncia de que seis jovens haviam desaparecido em Luziânia, cidade do estado de Goiás. Mas, ao chegar à região e colher informações a surpresa: os relatos demonstraram que o caso é muito mais grave do que o que se chegou à imprensa. "Não era apenas seis desaparecidos. O número é muito superior que 200 pessoas e envolve cidades de Goiás e de Brasília", informou a religiosa.

Segundo a irmã, a maioria dos casos não é investigada e muitas famílias não conseguem depor nem em delegacias, nem no Ministério Público. "Acompanhei uma mãe que teve o filho desaparecido em 2006 e até agora não conseguiu depor", relatou.

No Seminário Regional sobre Tráfico de Pessoas e Exploração Sexual realizado ontem (25) em São Paulo, ela disse que ficou decepcionada com a postura de ministros e representantes dos direitos humanos, uma vez que enfocaram apenas do tráfico com fins de exploração sexual. "Essa postura impossibilita averiguar o caso de Goiás, porque eles ignoram outros ramos de atuação do tráfico de pessoas", enfatizou.

"O que acontece com nossas autoridades? Não interessa para o governo o número de crianças, adolescentes e jovens que desaparecem assim, do nada? É estranho o comportamento das autoridades", indignou-se.

Segundo ela, o desaparecimento de jovens e as chacinas que acontecem em grandes centros urbanos são tratados como resultado do envolvimento de jovens com o tráfico de drogas, no entanto, essa é uma maneira simplista de explicar os fatos, que podem estar ligados ao tráfico para retirada e comércio de órgãos.

Ela disse que esse tipo de crime apresenta uma situação delicada porque envolve negociações internacionais. "O tráfico de órgãos é um crime que está a serviço da ciência", afirmou. "O tráfico de seres humanos não é um crime cometido por pobres, mas por quem tem poder", enfatizou.

Para ela, o problema do tráfico é uma questão política e depende da atuação e interesse dos governos. "Infelizmente, a tendência é aumentar os casos desse crime. É necessário ter uma lei que qualifique o tráfico de órgãos como crime hediondo", declarou. Ela disse ainda que é importante oferecer apoio aos familiares das vítimas.

"A situação é real, é gritante", afirmou Elilda e continuou seu apelo com um alerta: "Na região de Goiás, esses casos não podem ser descartados. Não podemos nos conformar em recolher os restos dos corpos dos nossos familiares e deixar que esse crime continue. A sociedade deve demonstrar interesse em combater o tráfico, deve denunciar. A impunidade é o que faz o crime continuar", desabafou.

*Jornalista da Adital

Fonte: www.adital.com.br

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