Dom Helder, Missionário

José Comblin

DOM HÉLDER, MISSIONÁRIO

 

Com certeza, dom Helder não tinha pensado que seria um dia missionário. As circunstancias levaram-no a exercer esse papel. Começou a ser conhecido no mundo no Concílio Vaticano II. Ele foi muito discreto, não tomou a palavra publicamente, mas desempenhou um grande papel nos corredores do Concílio. Assim foi conhecido por vários bispos que estiveram conscientes do papel que tinha sido o dele na preparação dos temas conciliares. Naquele tempo já chamava a atenção como “bispo dos pobres” graças à sua atuação nas favelas de Rio de Janeiro. Também a sua participação foi importante n o grupo dos bispos dos pobres e no Pacto das Catacumbas assumido por 40 bispos depois do Concílio.

O golpe militar de 1964 e os conflitos com os militares por causa das suas denúncias, deram-no a conhecer fora do mundo católico. Tornou-se uma personalidade no mundo das relações mundiais. A partir desse momento ele recebeu inúmeros convites em muitos países por parte de universidades, associações de direitos humanos, associações em defesa da democracia no mundo. Só não recebeu o prêmio Nobel da Paz por causa de uma intervenção muito forte do governo brasileiro.

Depois de 1968 ele foi o bispo católico mais conhecido no mundo, mais vezes mencionado nos jornais ou nas revistas e mais vezes mostrado na TV do Primeiro Mundo. As próprias agressões do governo brasileiro e das classes dirigentes do Brasil serviram para torna-lo mais famoso.

Se a primeira qualidade de um missionário é estar presente e ativo no mundo, dom Helder era missionário. Teve oportunidade de falar em muitos ambientes alheios à Igreja católica. Sempre aproveitou para propor a doutrina social da Igreja, tão desconhecida no mundo e tantas vezes deformada por tantos católicos.

Pelo seu testemunho soube dar uma imagem atrativa e simpática do cristianismo a muitas pessoas que não o conheciam ou tinham dele uma visão deformada. Ele mostrou o rosto de uma Igreja comprometida com a dignidade humana e com a libertação dos pobres e dos oprimidos. Foi o autor de uma aproximação de muitas pessoas ou organizações dedicadas à libertação dos povos dominados, com a Igreja. Graças a ele muitos setores anticlericais descobriram que a Igreja era tão comprometida, ou mais comprometida do que eles com a libertação dos pobres. Pois, ele era para muitos a apresentação pública da Igreja. Fora da Igreja não se sabia quantas resistências ele encontrava entre os católicos, começando pela hierarquia.

É verdade que para o governo brasileiro e para as classes dominantes  ele era considerado um subversivo, um anti-patriota, um traidor, um “comunista”. Porém essas acusações eram um bom sinal. Se era atacado pelas forças que oprimiam o povo pela violência das estruturas e das armas, era bom sinal. Assim sempre aconteceu com os profetas. Até certo ponto essas acusações penetravam nas mentes do povo, mas fora do país elas eram reconhecidas como sinal de autenticidade. Na sua diocese o povo, que o conhecia, sempre lhe foi fiel apesar da propaganda contrária da mídia.

Os verdadeiros cristãos alegravam-se porque graças a ele e a outros que seguiam o mesmo caminho, a Igreja estava voltando às origens, desligada dos poderosos, fiel à verdade e com coragem para enfrentar a perseguição. A atitude corajosa dele dava a muitos cristãos mais ânimo, mais entusiasmo, mais capacidade de enfrentar os desafios do mundo. Animar os fiéis é também uma missão do profeta e do missionário. O exemplo de dom Helder despertou e estimulou muitos outros.

Na Igreja dom Helder foi duramente atacado por alguns colegas do episcopado, mas realmente por muito poucos. Pelo contrário, foi discreto, mas importante na CNBB durante “os gloriosos 24 anos”, isto é, as presidências de dom Aloysio Lorscheider, dom Ivo Lorscheiter, dom Luciano Mendes de Almeida.

Sofreu muito pela incompreensão da Cúria romana. Contou com o apoio pessoal de Paulo VI, que, no entanto, lhe disse um dia que continuasse a sua missão mas que não poderia apóia-lo publicamente. O ambiente da Cúria era de muita hostilidade. Várias vezes impediram que tivesse audiência do Papa Paulo VI A opinião dominante era que dom Helder era louco. O que também não é mau sinal. Pois, a própria família de Jesus veio buscá-lo porque achava que era louco. (Mc 3,21). É normal que o verdadeiro missionário seja tido por louco.

A Cúria fez tudo para impedir que dom Helder fosse falar no mundo. Procuraram proibir-lhe as viagens. Limitaram o número de viagens autorizadas ou o número de dias dedicados às viagens. Uma verdadeira perseguição burocrática que dom Helder suportou com uma infinita paciência. Era como impedir que fosse missionário, somente porque a sua missão não cabia dentro das normas do direito canônico. A coisa mais anticristã que se pode imaginar e que somente pode germinar na cabeça de burocratas sem imaginação.

João Paulo II teve alguns gestos muito positivos, por exemplo, quando no Recife proclamou dom Helder o irmão dos pobres. Mas não conseguiu ou não procurou mudar a opinião da Cúria. Não o fez cardeal no final da vida, como Leão XIII tinha feito com Newman para reabilitá-lo depois de tantas ofensas que teve que sofrer durante a vida da parte da autoridade. Não houve reabilitação de dom Helder. Isto será uma mancha na glória de João Paulo II.

O teólogo Yves Congar escrevia logo depois da primeira conversa com dom Helder durante o Concílio: ele é um homem de muitas idéias, de imaginação e de entusiasmo. Ele tem o que falta em Roma: a visão [1].

No Concílio, dom Helder descobriu os outros continentes, Ásia e África. Descobriu o erro das missões feitas desde o século XV até o século XX. Os missionários partiam da idéia de que os povos situados fora da cristandade eram pagãos, sem religião. A missão partia de nada como se os outros povos fossem tabula rasa, sem religião, sem Deus e sem vitalidade religiosa. O que tinham era considerado, imediatamente, como erro, engano, falsidade, finalmente como obra do demônio. Era preciso começar partindo da nada. Daí um sentimento tão forte de superioridade de quem conhece toda a verdade em face de quem nada sabe da verdade. Os missionários tiveram que enfrentar muitas dificuldades, sofreram muitos padecimentos, muitas vezes sacrificaram a vida em países cheios de doenças mortais. Mas a Igreja deles era conquistadora, poderosa, com um imenso sentimento de superioridade. A missão era intrinsecamente agressiva embora os missionários pudessem ser individualmente muito humildes.

Dom Helder teve logo e cada vez mais essa intuição. Os sinais de poder da Igreja, as basílicas, os palácios, os monumentos mostram uma face da Igreja que somente pode provocar a repulsa das pessoas sensíveis e intuitivas, profundamente religiosas dos países situados fora da cristandade. O que muitas vezes enche os católicos de orgulho, somente pode ofender os outros.

Esta descoberta encontra-se em muitas páginas das suas Circulares do Concílio, nos dois tomos publicados em francês e no seis tomos publicados em português.

Hoje em dia a maioria dos missionários reconhece teoricamente o que parece ser uma evidência. No entanto, a Igreja continua impondo a sua estrutura de cristandade aos outros povos sem querer suprimir as barreiras que impedem a entrada dos outros povos: o mesmo catecismo, a mesma liturgia, o mesmo direito canônico.

Tudo isso em nome da unidade da Igreja. Pois por unidade entende-se  unidade imperial, unidade pela uniformidade e pela submissão de todos aos mesmos códigos. Como se a unidade pensada por Jesus não fosse uma unidade fundada no amor entre todas as comunidades de discípulos de Jesus.

Depois do concílio dom Helder foi convidado várias vezes nos outros continentes do Terceiro Mundo e teve a oportunidade de aplicar esses princípios missionários.

Se de fato os escritos todos de dom Helder forem publicados, os missionários poderão aprender muito dele, que teve a intuição da verdadeira missão antes de muitos outros.

 

José Comblin

Janeiro 2008

 

[1] Cf. José  de Broucker, Les nuits d’un prophète,  Dom Helder Câmara à Vatican II, Cerf, Paris, 2005, p. 23.

 

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