ESCOLA DE FORMAÇAO FÉ E POLÍTICA DO PARANÁ
Introdução
O presente texto apresenta a experiência da Escola de Formação Fé e Política do Paraná, uma iniciativa do Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalhadores – CEPAT* , em parceria com o Regional Sul II da CNBB. A Escola funciona há dez anos. Destacamos aqui, sucintamente, o seu histórico, seu objetivo, os princípios metodológicos e os conteúdos abordados. Trazemos ainda um balanço desses dez anos de experiência.
1.- Histórico
A Escola de Formação Fé e Política do Paraná iniciou suas atividades no ano de 1996 – ano de eleições municipais –, motivada pela Campanha da Fraternidade que teve como tema ‘Fraternidade e Política’ e lema ‘Justiça e Paz se abraçarão’.
Duas premissas básicas estão na origem da Escola. Primeiro, uma manifestação clara e concreta do valor, e importância que a Igreja dá aos cristãos e cristãs que atuam na política e, segundo, uma aposta na formação para qualificá-los na participação dos espaços políticos. A Escola surgiu também a partir da análise da fragilidade dos partidos políticos no que se refere à formação dos seus filiados. Dessa forma a Escola oferece sua contribuição – a partir da sua especificidade cristã – a todos aqueles e aquelas que estão na política e não encontram espaços para sua formação.
Dois eixos estão presentes na fundação da Escola. O primeiro é a pluralidade como um princípio importante permeado pelo livre debate e pela confrontação de idéias. O segundo, é a aposta no local como espaço privilegiado para o agir político. Deriva daí que o público destinatário a quem é oferecido a Escola é prioritariamente quem faz política no município, como vereadores (as), secretários(as) municipais, dirigentes de partidos. Ao mesmo tempo a Escola acolhe também a participação de lideranças do movimento social e pastoral que tem um vivo interesse pelo mundo da política.
O conceito de Escola não é gratuito. E isso para nós está claro desde a sua origem. Não se trata de um curso, mas de um processo de formação, com conteúdos a serem estudados previamente entre uma etapa e outra, com metodologia adequada que favorece e prioriza a participação na construção coletiva dos conhecimentos.
Ao longo desses dez anos de existência da Escola, passaram por ela aproximadamente 400 participantes, entre eles, vereadores(as), prefeitos(as), deputados, secretários(as) municipais, dirigente partidários de diferentes partidos, lideranças do movimento social e das pastorais sociais, cumprindo uma carga horária de 200 horas/ano.
2.- Objetivo da Escola
O Objetivo da Escola é o de “contribuir, efetivamente, na capacitação de lideranças inseridas na vida política local a partir de princípios éticos e valores evangélicos, na perspectiva da construção de uma sociedade economicamente justa, ecologicamente sustentável, politicamente democrática, socialmente solidária e culturalmente plural”. Esse objetivo foi sendo construído ao longo da existência da Escola, podendo ainda ser alterado ou acrescido conforme a experiência de formação vai se desenvolvendo.
Para nós da Escola sempre foi claro que somos uma entre tantas iniciativas na área da formação política. Porém, fazemos a nossa formação a partir de algumas especificidades próprias que se traduzem em nossos objetivos específicos. O primeiro deles é o desejo de aprimorar a prática política dos participantes tendo presente os valores evangélicos e os princípios éticos à luz do Ensino Social da Igreja. Essa é uma especificidade da nossa formação. É evidente que em outras iniciativas de formação, principalmente dos partidos, essa particularidade não se faz presente. Para nós ela é central e constitutiva à existência da Escola.
Um segundo desejo da Escola é o de subsidiar a reflexão dos participantes sobre os modelos de organização da sociedade e do Estado, ou seja, apesar da Escola apostar no local como ação privilegiada para a ação política, consideramos fundamental que os participantes tenham uma visão clara dos temas macro-políticos e macro-econômicos da sociedade nacional e do mundo. Finalmente, a Escola procura despertar em seus alunos a ousadia para que se busquem novas formas do exercício da função pública que sejam capazes de superar, efetivamente, o clientelismo, o assistencialismo e o paternalismo, os grandes problemas da política brasileira em nossa opinião.
A partir das preocupações expostas acima no que diz respeito à nossa especificidade, a Escola procura em todas as etapas abordar alguns conteúdos que são considerados permanentes, como: A reflexão ético-teológica à luz do Ensino Social da Igreja; a celebração Eucarística, bem preparada e vivenciada; a relação Fé - Política, Fé - Vida. Isto se faz a partir de testemunhos de vida dos participantes, de leitura de textos ou de pessoas convidadas. Ainda procuramos desenvolver de forma permanente a análise da conjuntura nacional e/ou regional, conciliando com a abordagem de experiências alternativas na área da educação, na área da saúde, na área da agricultura familiar, na área do meio ambiente, na área da geração de empregos etc. Aqui procuramos estar atento àquelas experiências que nos ajudam a perceber o novo, a novidade. Experiências que reúnam a radicalidade da inclusão social com participação popular.
3.- Os princípios da Escola
O primeiro princípio da Escola é o da pluralidade. Os participantes são de vários partidos políticos e oriundos de diferentes experiências, porém a orientação da Escola é do compromisso com os excluídos. Para nós o que dá unidade na pluralidade é o compromisso de construir uma sociedade onde caibam todos e todas.
O segundo princípio, muito importante, é a prática e o conhecimento político dos participantes. A Escola não quer ser um evento em que se vai para ouvir palestras ou conferências grandiloqüentes. Os participantes da Escola são desafiados a serem agentes do processo. Assim, a Escola privilegia sempre a prática e o conhecimento dos participantes. Por isso ela consiste num constante desafio de ser uma construção coletiva. Privilegiando a construção coletiva, a Escola incentiva e motiva os participantes a entenderem cada vez melhor a sua realidade local.
Um terceiro princípio é o de que a Escola é uma caminhada que não se resume às etapas propriamente ditas, mas que entre uma etapa e outra, os participantes irão construindo o saber.
4. Conteúdos abordados pela Escola
A Escola funciona em seis etapas. Os conteúdos abordados são os seguintes: 1.- O Brasil que temos - História da Modernização Brasileira; 2.- O Brasil que Queremos - Queremos um Brasil economicamente justo; 3.- Queremos um Brasil politicamente democrático - O Estado Brasileiro; 4.- A construção da cidadania a partir do município; 5.- Outra Cidade é Possível?; 6.- Ética e Espiritualidade.
A partir de cada um desses temas é construído o programa, tendo presente a metodologia da Escola, seus princípios e objetivos. Os conteúdos se desdobram em uma série de sub-conteúdos. A Escola sempre insiste na abordagem de cada tema a partir do conhecimento dos participantes. Assessores convidados participam ajudando no aprofundamento da temática e em sua sistematização.
5. Balanço dos dez anos de Escola
A Escola de Formação Fé e Política do Paraná completa em 2006 dez anos de existência, de funcionamento ininterrupto. Depois de todo esse período já é possível fazer um balanço, ao menos preliminar, uma vez que nunca realizamos uma pesquisa mais rigorosa para avaliar o seu real impacto e a sua real contribuição junto a todos aqueles e aquelas que fizeram a Escola.
Uma primeira constatação é a longevidade da Escola. Essa iniciativa não surgiu com a pretensão de se tornar permanente. Porém, perdura até hoje. É importante destacar que no nosso caso particular, a Escola não é subsidiada. Os participantes pagam para fazê-la. Esse aspecto não deve ser desconsiderado, porque exige uma clara opção de quem deseja participar, uma vez que se investem recursos.
Uma explicação para a longevidade da Escola pode ser encontrada na ausência de espaços de formação, particularmente a partir de meados dos anos de 1990. A partir dessa época, as organizações arrefeceram em suas políticas de formação. Particularmente os partidos praticamente deixaram de investir em formação. Embora todos os partidos tenham os seus Institutos de Pesquisa e/ou Formação, as iniciativas desenvolvidas são poucas, esparsas e fragmentadas. Portanto, a oferta de uma Escola como a que desenvolvemos preencheu uma carência.
Um segundo aspecto da vida longa da Escola, talvez possa ser buscado na afirmação que a Igreja sempre fez da importância da política. A Igreja sempre estimulou a participação de leigos e leigas na política. Há uma longa tradição do Ensino Social da Igreja incitando os cristãos para que assumam o mundo da política como um instrumento importante para a edificação de uma sociedade justa. Muitos cristãos realmente se sentem impelidos a esse serviço. O problema, entretanto, reside na ausência da formação. Muitos receiam que não estão preparados para essa tarefa, de que lhe faltam condições de assumir esse serviço. Portanto, quando surge uma proposta de formação lançada por essa mesma Igreja, que foi a porta de entrada para o interesse pela política, muitos ficam felizes em participar dessa iniciativa. Porque responde a um desejo e anseio pessoal de compreender melhor o mundo da política que o desafia e atrai.
Uma pergunta que muitos nos fazem é se efetivamente a Escola contribui para a mudança de práticas políticas, se ajuda de fato na preparação ou aprimoramento de quem deseja entrar, ou já está na política. A resposta a essa pergunta demandaria uma pesquisa mais rigorosa. Entretanto, uma resposta parcial é possível. A nossa experiência revela que uma Escola de Formação Fé e Política não faz ‘milagres’. Ou seja, não é porque um cristão ou cristã tenha feito a Escola que possa ser julgado como um bom político ou possa se afirmar que está preparado para encarar o duro mundo da política. Absolutamente.
O que a experiência da Escola nos revela é que ela ajuda muitíssimo a quem já está na caminhada. A Escola não converte ninguém e nem é esse seu propósito. Não é a participação em um ano, a partir de seis encontros, que a Escola revoluciona a prática das pessoas. Ela ajuda a quem cultiva ou está procurando novos caminhos, uma mudança de prática.
Porém, cabe destacar que a Escola promove em muitos um ‘choque’. Ela questiona profundamente a prática que se faz cotidianamente. A ponto de conhecermos pessoas que abandonaram a participação na política partidária por se sentirem profundamente questionados – e incomodados - com o que vinham fazendo.
Por sua vez, em outros têm-se a impressão de que não assimilam a sua proposta e a sua essência. Continuam com a mesma prática, a mesma visão do que é política e até mesmo justificam a sua ação política. A constatação é que o mundo da política é duro, estabelece a sua própria lógica e a suas próprias regras e engole as pessoas ou as pessoas se deixam engolir. Muitos não encontram coragem de romper com as amarras tradicionais, porque percebem que o custo pode ser muito alto, pode comprometer a comodidade em que se encontram. Outros simplesmente ouvem, debatem, concordam com o que se discute, porém na essência duvidam ou desconfiam que realmente ética e política combinem.
Porém, percebemos que em muitos a Escola promove um vivo despertar para o novo, para o fazer política de um jeito diferente. Muitos se sentem encorajados, desafiados a inovarem em sua ação política, em seu trabalho social e pastoral. Os que mais se sentem animados e estimulados são aqueles que na verdade já realizam uma caminhada de busca de atualização de seus conhecimentos e de prática, que já exercitam no cotidiano, em seu trabalho político, a busca pela efetiva participação popular, pela transparência, pela radicalidade. A Escola, nesta perspectiva contribui na sistematização dos conhecimentos, no apoio e incentivo para algo que já se faz. Contribui também para o despertar pelo interesse intelectual, para leituras, para um buscar pelo melhor conhecimento da realidade local.
Ao longo desses dez anos percebemos ainda que mudou significativamente o perfil dos que participam da Escola, particularmente a partir dos últimos quatro anos. Nos primeiros anos de Escola participavam em sua maioria absoluta pessoas que de fato estavam envolvidos na militância político partidária, ou seja, vereadores, prefeitos, até mesmo deputados, dirigentes de partidos, assessores parlamentares e militantes em cargos comissionados e funcionários do executivo. Nos últimos anos cresceu a participação de militantes dos movimentos sociais, das pastorais e de pessoas vinculadas a trabalhos em comunidades e paróquias. Qual a razão para a mudança de perfil? Uma das explicações é o que chamamos de esvaziamento da política, até mesmo de uma crise da política, enquanto local e espaço de militância para a luta pela transformação social. Os partidos passam por um crescente descrédito. Muitos cristãos que se empenharam na militância nos partidos, hoje os vêem com certa indiferença. Há um nivelamento de concepções, de práticas, de programa que tornam os partidos todos muito semelhantes. Pior que isso, os partidos não foram capazes de serem espaços de produção do novo, de radicalizarem a democracia interna, de promoverem formação. Os partidos foram sendo controlados por poucos. Particularmente a experiência dos partidos de esquerda, que apontavam para algo diferente, foram caindo na vala comum e reproduzindo os vícios que tanto se criticava. Talvez essa seja uma razão para o afastamento dos partidos e uma aposta maior nos movimentos sociais. É inegável que há uma mediocrização dos partidos.
A experiência de dez anos de Escola mostra ainda sua capacidade de geração de outras iniciativas. Particularmente no Paraná, a Escola de Formação Fé e Política foi responsável pela criação de Escolas diocesanas, de cursos relacionados ao tema Fé e Política, grupos de estudos e até mesmo pela criação ou fortalecimento da Pastoral Sócio-Político nas dioceses.
Há ainda um outro aspecto importante na nossa experiência de formação. Trata-se da troca de experiências e do conhecimento de outras realidades. A Escola ajuda na interação das pessoas. Estabelece relações de amizade, de fraternidade, e até mesmo de articulação política. É um espaço de debates, de trocas, de articulação.
Por tudo o que foi exposto, apesar dos seus limites, consideramos a experiência da Escola como exitosa. A Escola poderia avançar ainda muito mais desde que dispusesse de condições que permitissem um acompanhamento maior dos alunos, não apenas durante o período em que a realizam, mas sobretudo posteriormente.
Constatamos que as pessoas gostariam de um tipo de continuidade na qual pudessem continuar refletindo sobre a sua prática política. Porém, isso exigiria pessoas preparadas que viajassem, promovessem visitas, articulassem reuniões, estabelecessem contato permanente, com envio de material, possibilidade de consulta etc.
Esse caminho poderia tornar a Escola mais produtiva, mais coerente e mais eficaz em sua contribuição.
* O Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalhadores (CEPAT) é uma organização de caráter público, não governamental, constituída por leigos e jesuítas da província Brasil Meridional com sede em Curitiba-PR. É uma organização sem fins lucrativos, apartidária e pluralista. O CEPAT concentra o seu trabalho em quatro grandes linhas de ação: Transformação socioeconômica e ético-cultural; Formação ético-política; Articulação com a sociedade civil; Mística e espiritualidade.
Cesar Sanson
Coordenador da Escola de Formação Fé e Política
cepat@brturbo.com.br

