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FSM 2018. Uma adolescência questionadora

por Pietra Soares última modificação 06/02/2018 15:50

Dezessete anos após sua primeira edição, em 2001, o Fórum Social Mundial (FSM) retorna ao seu país de nascimento: a próxima edição será realizada entre os dias 13 e 17 de março de 2018, em Salvador, Bahia, no nordeste do Brasil.


Uma curta vida na qual a dinâmica de desenvolvimento e crescimento não foi linear e nem aritmética. O Fórum, como principal espaço internacional de encontro e reflexão de atores sociais, enfrenta hoje o desafio de sua própria redefinição, reinvenção e reconceitualização. E sua “adolescência altermundialista” se encontra ainda mais complexa no marco do intrincado contexto latino-americano e mundial.

No berço do primeiro FSM, em 2001, em Porto Alegre, do orçamento participativo, não houve receita alguma. Tudo foi intuição, convocação ampla na diversidade e um momento internacional favorável para a contestação e protestos globais. Desse primeiro encontro surgiu a Carta de Princípios que constitui seu marco de referência conceitual e funcional.

Nas duas edições seguintes (2002 e 2003), na mesma cidade do sul do Brasil, a capacidade de convocação do FSM superou todas as expectativas.

A complexa situação política do Brasil será um marco singular e propício para o FSM 2018 (Foto: Douglas Mansur/Novo Movimento)

Um rápido trânsito a Mumbai, Índia, em 2004, para o que constituiu o Fórum dos “dalits” (sem casta) e que se tornou um dos mais bem-sucedidos, com cerca de 100.000 participantes. E, em seguida, o retorno novamente a Porto Alegre, em 2005. Edições todas, até então, que experimentaram um crescimento rápido que superou as expectativas mais otimistas, inclusive a de seus próprios organizadores.

Em 2006, a fórmula inventiva de um FSM descentralizado em três continentes, realizado em Caracas (Venezuela), Karachi (Paquistão) e Bamako (Mali) lançou sinais de alerta. Já não era possível para os movimentos sociais e suas redes internacionais estar presentes todos os anos nestas convocações internacionais. Argumentavam que precisam levar em conta suas próprias prioridades de organização e mobilização local e nacional. Desse modo, o FSM corria o risco de uma presença protagonista de ONGs e redes internacionais, com mais recursos financeiros e menos pressões em combates frontais cotidianos.

Em 2007, a necessidade de demonstrar seu perfil “mundial” o levou a Nairóbi, Quênia, expondo não só as temáticas africanas em primeira linha, mas também tensões organizativas de diversos tipos que alertaram sobre um enfraquecimento progressivo deste espaço.

Dois anos mais tarde, a volta ao Brasil, neste caso à amazônica Belém do Pará, assegurou uma nova baforada de oxigênio a este processo em marcha, integrando como fio vermelho a problemática dos povos indígenas e sua luta pela terra e território.

A nova edição africana de 2011 em Dakar, Senegal, foi menos multitudinária que a precedente, ainda que com conteúdos civilizatórios essenciais, como racismo, colonialismo, escravismo e migrações.

A primavera árabe e a nova experiência de mobilização cidadã revitalizaram o FSM e alimentaram com conteúdos regionais suas edições de 2013 e 2015, na capital da Tunísia. As mesmas, no entanto, não deram respostas organizativas de futuro às interrogações de fundo que eram apresentadas no Fórum. O Conselho Internacional, enquanto principal instância facilitadora, se mostrou superado pela própria dinâmica da convocação. Alguns movimentos sociais lançaram novos gritos de advertência, em forma de ultimato, sobre a natureza e a forma de funcionar do FSM.

A protagonista força juvenil de Quebec legitimou seu direito de convocar, em agosto de 2016, o primeiro FSM que se realizou em um país do Norte. Os organizadores haviam amadurecido no calor da luta da primavera juvenil de Quebec (2012), das greves contra os cortes de 2015, assim como da intensa e estendida mobilização do movimento occupy e outras dinâmicas antiglobalização. O FSM de Montreal embora tenha lançado ar fresco conceitual e metodológico a este processo em marcha, não pôde resolver certos dilemas como a participação de representantes de países do Sul, penalizados por exclusões migratórias e a negação de vistos. A crise do Conselho Internacional alcançou níveis preocupantes e públicos, durante e após o encontro de Montreal.

E foi nesse marco de perguntas existenciais e de fundo sobre o próprio sentido do FSM e sua capacidade de se autoconvocar que um Coletivo brasileiro e baiano lançou, já em inícios de 2017, a proposta de Salvador da Bahia para março de 2018.

Resistir é criar, resistir é transformar constitui o lema desta convocação que será de vital importância para o Fórum em plena e desafiante adolescência. Em uma conjuntura internacional de crise, de riscos crescentes para a paz e a própria sobrevivência do planeta. E de uma brutal ofensiva “conservadora-neoliberal” em diversas regiões sensitivas do planeta contra os movimentos sociais e a tudo o que diz respeito à democracia de base, participação cidadã e governos progressistas.

A reportagem é de Sergio Ferrari, publicada por America Latina en Movimiento (ALAI), 02-02-2018. A tradução é do Cepat.

Fonte: ALAI

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