Ação no Pinheirinho viola direitos, diz relatora da ONU
O processo de reintegração de posse de Pinheirinho viola
os direitos humanos. É preciso suspender o cerco policial e formar uma
comissão independente para negociar uma solução para as famílias.
A opinião é da relatora especial da ONU para o direito à moradia adequada, a arquiteta e urbanista Raquel Rolnik, 55, que enviou um Apelo Urgente
às autoridades brasileira pedindo explicações sobre o caso. Para ela,
professora da FAU/USP, o país caminha para trás no campo dos direitos
humanos e a pauta da inclusão social virou "sinônimo apenas da inclusão
no mercado".
Nesta entrevista, ela avalia também o episódio da
cracolândia. Faz críticas do ponto de vista dos direitos humanos e da
concepção urbanística. Rolnik aponta para violações de
direitos em obras da Copa e das Olimpíadas e avalia que "estamos indo
para trás" em questões da cidadania.
No plano mais geral, entende
que o desenvolvimento econômico brasileiro está acirrando os conflitos
em torno da terra --nas cidades e nas zonas rurais. E defende que "as
forças progressistas", que na sua visão abandonaram a pauta social,
retomem "essa luta".
A entrevista é de Eleonora de Lucena e publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, 27-01-2012.
Eis a entrevista.
Qual sua avaliação sobre o caso Pinheirinho?
Como relatora enviei um Apelo Urgente às autoridades brasileiras,
chamando atenção para as gravíssimas violações no campo dos direitos
humanos que estão acontecendo no processo de reintegração de posse no Pinheirinho.
Posso apontar várias dessas violações. Minha base legal é o direito à
moradia adequada, que está estabelecido nos pactos e resoluções
internacionais assinados pelo Brasil e que estão em plena vigência no
país.
O grande pano de fundo é que não se remove pessoas de suas
casas sem que uma alternativa de moradia adequada seja previamente
equacionada, discutida em comum acordo com a comunidade envolvida. Não
pode haver remoção sem que haja essa alternativa. Aqui se tem uma
responsabilização muito grave do Judiciário, que não poderia ter emitido
uma reintegração de posse sem ter procurado, junto às autoridades,
verificar se as condições do direito à moradia adequada estavam dadas. E
não estavam.
O Judiciário brasileiro, particularmente do Estado
de São Paulo, não obedeceu à legislação internacional. A cena que vimos
das pessoas impedidas de entrar nas suas casas e de pegar seus pertences
antes que eles fossem removidos para outro local --isso também é uma
clara violação. Isso não existe! Nenhuma remoção pode deixar a pessoa
sem teto. Nenhuma remoção pode impor à pessoa uma condição pior do que
onde ela estava. São duas coisas básicas.
Nenhuma remoção pode
ser feita sem que a comunidade tenha sido informada e tenha participado
de todo o processo de definição do dia da hora e da maneira como isso
vai ser feito e do destino de cada uma das famílias.
Tudo isso
foi violado. Já violado tudo isso, de acordo com a legislação da moradia
adequada, tem que fazer a relação dos bens. Remoção só deve acontecer
em último caso. Isso foi absolutamente falho.
Essa área não poderia ser decretada de importância social?
Não
pode haver uso da violência nas remoções, especialmente com crianças,
mulheres, idosos e pessoas com dificuldade de locomoção. Vimos cenas de
bombas de gás lacrimogêneo sendo jogadas onde tinham mulheres com
crianças e cadeirantes. Coisa absolutamente inadmissível.
Desde
2004 a ocupação existe e acompanhei como ex-secretária nacional dos
programas urbanos do Ministério das Cidades. A comunidade está lutando
pela urbanização e regularização desde 2004. Procuramos várias vezes o
então prefeito de São José dos Campos para equacionar a regularização e urbanização.
O
governo federal ofereceu recursos para urbanizar e para regularizar a
questão fundiária. O governo federal não executa. O recurso é passado
para municípios.
O que aconteceu?
Prefeito
do PSDB jamais quis entrar em qualquer tipo de parceria com o governo
federal para viabilizar a regularização e urbanização da área.
Por quê?
Pergunte
para ele. Nunca quis tratar. A urbanização e regularização da área
seria a melhor solução para o caso. A situação é precária do ponto de
vista de infraestrutura, mas poderia ser corrigida. Aquela terra é da
massa falida da Selecta, que é um grande devedor de recursos públicos, de IPTU. A negociação dessa área seria facilitada.
Se
poderia estabelecer com eles uma dação em pagamento. Mesmo se não fosse
viável uma dação em pagamento, a terra poderia ser desapropriada por
interesse social, pelo município, Estado ou União.
Como fica a questão dos credores da massa falida?
Não
sei quantos e quais são os credores. Recebi informações, que não sei se
estão confirmadas, de que os maiores credores são os próprios poderes
públicos, prefeitura municipal, Estado e governo federal, dívidas de
INSS e impostos com o governo federal, principalmente dívidas com o
município e governo federal. Não tenho certeza. Faz todo o sentido o
equacionamento dessa terra para os poderes públicos e a posterior
regularização fundiária para os moradores.
Como a sra.
analisa a questão da disputa partidária no episódio, envolvendo PSDB,
PT. O PSTU jogou para o confronto? Poderia ter solução sem confronto?
Não
podemos ignorar que a questão partidária intervém nessa questão e em
muitas outras. Há presença do conjunto dos partidos do país na disputa
dos conflitos fundiários, assim como no investimento, regularização e
urbanização dessas áreas. Existe a questão partidária e ela foi
explorada nesse caso.
A questão fundiária do Brasil é politizada
integralmente. Não só nesse caso. Há presença dos partidos também no
momento que se muda o zoneamento da cidade para atender os anseios de
determinados grupos imobiliários que vão doar para determinadas
campanhas. Não tem processo decisório sobre a terra no Brasil que não
esteja atravessado por questões econômicas e políticas.
Independentemente
disso, atender plenamente aos direitos dos cidadãos tem que ser cobrado
por nós, cidadãos brasileiros. Não quero saber se o PT, o PSDB, o PSTU
estão querendo tirar dividendos disso. Como cidadã, isso não interessa. O
que interessa é que o cidadão, as pessoas têm que ser tratadas como
cidadãos, independentemente da sua renda, independente se são ocupantes
formais ou informais da terra que ocupam, independentemente da sua
condição de idade, gênero.
Não pode haver diferença e nesse caso
houve claramente um tratamento discriminatório. E isso a lei brasileira
impede que seja feito. Então há uma violação.
O PSTU jogou para o confronto?
Não
tenho detalhes de como cada uma das lideranças agiu antes e durante a
entrada da polícia. Se houve um líder que conclamou à violência, essa
informação eu não tenho. É fato que a comunidade procurou resistir,
porque acreditou que aquela liminar que suspendia a reintegração ainda
estava válida. Por isso resistiu. Pode ter alguém conclamando à
resistência ou não. Se a comunidade vai entrar nessa ou não, depende da
própria avaliação que a comunidade faz: se ela tem chance de ficar ou
não. A comunidade acreditou que a liminar estava suspensa e estava
apostando em uma solução que estava em andamento.
Chamo atenção
para a enorme irresponsabilidade do Judiciário nesse caso. Tínhamos uma
situação de negociação em andamento. Sou contra [o confronto]. Sou
absolutamente a favor de soluções pacíficas e, nesse caso, elas não
foram esgotadas. Um contingente de 1.800 homens, helicópteros, usando
elemento surpresa, uma linguagem de guerra.
Como avalia PT e PDSB nesse caso. A sra é do PT, não?
Não.
Eu aqui falo como relatora dos direitos à moradia adequada. A questão
partidária que existe é irrelevante. Os direitos dos cidadãos precisam
ser respeitados.
O que se deve esperar como consequência concreta desse Apelo? A sra. acredita que possa haver reversão desse processo?
As autoridades têm 48 horas para responder ao Apelo.
Confirmando ou não as informações de violação. Estamos alegando que
houve informações sobre feridos, eventualmente mortes, que não houve. O
Apelo é mandado para a missão permanente do Brasil em Genebra,
que manda para o Ministério das Relações Exteriores e o MRE é quem faz o
contato com a prefeitura, o governo do Estado e os órgãos do governo
federal para responder.
Amanhã [hoje] faço um pronunciamento
público. Nele peço que seja imediatamente suspenso o cerco policial, que
se estabeleça uma comissão de negociação independente, com a
participação da prefeitura, governo do Estado, governo federal e
representação da própria comunidade, para que se possa encontrar uma
solução negociada para o destino da área e das famílias. Que é a questão
principal: o destino das famílias. Na minha opinião, idealmente, isso
deveria envolver a própria área.
A sra. não descarta a hipótese das famílias voltarem para a mesma área?
Não descarto. Se houver um acordo em torno da questão da terra, inclusive com a massa falida da Selecta, seria possível. O mais importante: temos que acabar com esse tipo de procedimento nas reintegrações de posse no Brasil.
Não é só no Pinheirinho que
estão acontecendo violações. Tenho denunciado como relatora que as
remoções que estão acontecendo também violações no âmbito dos projetos
de infraestrutura para a Copa e para as Olimpíadas. Menos dramáticas, talvez, do que no Pinheirinho, mas igualmente não obedecendo o que tem que ser obedecido.
A questão social no Brasil ainda é um caso de polícia?
Infelizmente
tenho a sensação de que estamos indo para trás. Porque nós - e a minha
geração fez parte disso - lutamos pelo Estado democrático de direito,
pela questão da igualdade do tratamento do cidadão, pela questão dos
direitos humanos. Para nós, a partir da Constituição isso virou um valor
fundamental.
Nesta mesma Constituição se reconheceu o direito dos ocupantes de terra com moradia, que ocuparam por não ter outra alternativa.
Está
na Constituição e, agora que o Brasil está virando gente grande do
ponto de vista econômico, estamos voltando para trás no que diz respeito
a esses direitos. Estamos assistindo a remoções sendo feitas sem
respeitar [esses direitos]. Estamos assistindo um discurso totalmente
absurdo --de que eles, que ocupam áreas, que não tiveram outra
alternativa, são invasores. Como eles não obedeceram a lei, não temos
que obedecer lei nenhuma com eles.
É um discurso
pré-Constituinte. Isso foi amplamente reconhecido na Constituição. Tem
artigo sobre isso. Estamos tratando essas questões não só aí [no
Pinheirinho]. Veja como isso está sendo tratado na cracolândia. Vemos
isso em várias remoções nos casos da Copa e das Olimpíadas.
Simplesmente há um discurso: eles são invasores, não obedeceram a lei,
para eles não vale nada da lei. Estamos picando a Constituição.
Por que estamos indo para trás?
É
preciso ver como se foi constituindo uma pauta dominante. Como a pauta
da inclusão social acabou sendo sinônimo apenas da inclusão no mercado,
via melhoria das condições de renda. A inclusão no campo cidadão acabou
tendo um papel muito menor e menos importante.
Nesse momento de
desenvolvimento econômico muito importante, as terras urbanas e rurais
adquirem um enorme valor econômico. Os conflitos em torno da terra estão
sendo acirrados em função disso, dado o enorme e importante valor que a
terra está assumindo. A exacerbação dos conflitos de terra tem a ver
com o aumento do interesse pela terra.
Qual sua visão sobre os incêndios em favelas em São Paulo?
Que
favelas pegam fogo em São Paulo? As favelas melhor localizadas. Não
vejo notícia de favela pegando fogo na extrema periferia na região
metropolitana, que é onde mais tem favela.
Qual é a sua hipótese?
A
hipótese tem a ver com a importância estratégica de uma parte da terra
ocupada por favelas --a importância estratégica para o mercado
imobiliário de uma parte da terra ocupada por favelas. Trata-se de uma
espoliação: uma terra valiosa em que você tira a favela e pode atualizar
o seu valor. Dentro de um modelo em que o único valor que importa é o
valor econômico e os outros valores não importam, tirar essa terra
valiosa de uma ocupação de baixa renda faz sentido.
Mas a terra
tem outros valores. Por exemplo, a função social da terra, outra coisa
que está escrita na nossa Constituição. Não estou afirmando que esses
incêndios sejam criminosos, porque não tenho nenhuma prova, nenhuma
referência que me permita dizer isso. Entretanto, acho fundamental que
esses incêndios sejam investigados. Por que esses incêndios estão
ocorrendo agora exatamente nessas favelas?
Como a sra. analisa a questão da Cracolândia?
Tem
muito a ver com isso tudo, embora existam outros direitos humanos
envolvidos. Estamos fazendo um Apelo Urgente também sobre a cracolândia,
conjuntamente com o relator para direitos da saúde e com o relator
sobre tratamento desumano e tortura. Devemos enviar brevemente.
Estamos
numa situação em que um projeto urbanístico, que é o da Nova Luz, tem
como principal instrumento a concessão dessa área integralmente para a
iniciativa privada. A viabilização para a concessão dessa área é
entregar essa área "limpinha". "Limpinha" significa sem nenhuma
população vulnerável, marginal, ambígua sobre ela. E, no máximo
possível, com imóveis demolidos, para permitir que se faça um
desenvolvimento imobiliário com coeficiente de aproveitamento muito
maior, prédios mais altos etc. E, portanto, com muito mais potencial de
valor no mercado. Isso está diretamente relacionado ao modelo da
concessão urbanística.
No plano urbanístico da Nova Luz,
um dos principais princípios é liberar áreas dos imóveis e das pessoas
que ocupam hoje, para permitir que essas áreas sejam incorporadas pelo
mercado imobiliário com potenciais de aproveitamento maiores.
Tenho uma crítica do ponto de vista dos direitos humanos, da forma como tem sido feito. Como no caso do Pinheirinho:
uso da violência policial e incapacidade de diálogo com a população.
Mas também como urbanista tenho uma enorme crítica a esse plano da Nova
Luz, que desrespeita o patrimônio material e imaterial ali presente. O
bairro da Santa Ifigênia é o bairro mais antigo de São
Paulo. É o único que ainda tem uma morfologia do século XVIII. Uma parte
dos imóveis que está sendo demolida, supostamente interditada, deveria
ser restaurada e reocupada. A ação é duplamente equivocada --do ponto de
vista urbanístico e dos diretos humanos.
Como a sra. resume toda essa situação? É um processo de expulsão dos mais pobres?
Exatamente.
Eu me recuso a chamar aquele local de cracolândia, porque foi um termo
forjado pela Prefeitura de São Paulo. O fato de essa área estar ocupada
por pessoas viciadas, que estão no limite da inumanidade, foi produto da
ação da prefeitura, que entrou nessa área demolindo, largando a área,
não cuidando da área, deixando acumular lixo e transformando essa área
em terra de ninguém.
Isso é fruto da ação da prefeitura e não da
falta de ação da prefeitura. Para depois chamar de cracolândia e depois
constituir um motivo para entrar dentro dessa área derrubando tudo,
prendendo todo mundo e limpando aquela área como terra arrasada para que
uma ação no mercado imobiliário possa acontecer.
Qual é o panorama geral?
Estamos
caminhando perigosamente no sentido da hegemonia do valor econômico da
terra como único valor, desconstituindo avanços importantes que a
sociedade brasileira fez no reconhecimento do direito de cidadania. Isso
é muito perigoso para o país. Espero sinceramente que a partir da
comoção do debate gerado sobre o Pinheirinho se possa reverter esse
caminho.
A sra. está otimista?
O Brasil
tem a faca e queijo na mão para poder mudar radicalmente de atitude. O
Brasil tem recursos econômicos. Tem um ordenamento jurídico que permite
respeitar os direitos.
O Judiciário tem que acordar para aplicar
não apenas o direito de propriedade nos processos que envolvam conflitos
de propriedade, mas também o resto do ordenamento jurídico que temos.
Os
Executivos municipais, estaduais e federais também têm que rever a sua
ação no sentido de obedecer isso. Temos recursos e temos uma base
jurídica para poder recuperar esse caminho.
O modelo hoje beneficia os mais ricos?
É
muito genérico falar dos mais ricos. É preciso ver quais são os
interesses beneficiados e que não estão sendo beneficiados. Qual é a
coalizão de interesses que está promovendo esse tipo de ação.
Temos
que entender que sempre existiram forças conservadoras no país. Por que
hoje elas têm mais força, mais poder? As forças progressistas
abandonaram essa pauta e essa agenda e precisam retomá-las. Existem
forças progressistas no Brasil.
Abandonaram a pauta social por quê?
Porque
privilegiaram fundamentalmente a inclusão pelo consumo, o maior poder
de compra, a valorização de salário, que são pautas fundamentais. Mas
não pode ser só isso. Está na hora das forças progressistas retomarem
essa luta.
Fonte: IHUonline

