APARECIDA:QUESTÃO DE MÉTODO?
D. Demétrio Valentini
Estão emergindo, com clareza, algumas questões estratégicas para a Conferência de Aparecida. Uma delas é o método a seguir, seja na dinâmica dos trabalhos, como na redação do documento. Em palavras simples, trata-se do "ver, julgar e agir", muito usado na tradição pastoral da Igreja na América Latina, desde as reuniões pastorais nas comunidades até as reflexões da teologia.
Em princípio, sendo uma questão de método, ela é relativa. Não deveria comportar, portanto, radicalizações. Se sabemos bem onde chegar, dá para seguir por caminhos diferentes.
Mas na verdade, a questão não é só de método. De tanto usado, ele se tornou símbolo de uma prática de Igreja, que quer estar atenta à realidade, ter os pés no chão, e perceber nos acontecimentos as brechas por onde a graça de Deus se manifesta, e nos convida a colocar nossa ação, iluminados pela Palavra de Deus.
Em vista disto transparece a validade deste método, que ajuda a Igreja a se situar na perspectiva dos planos de Deus. Assim, o "ver" já comporta a abertura para o "julgar", e dispõe para o "agir", numa coerência que envolve as três dimensões deste método, que na verdade é um processo dinâmico
Pois bem, uma das grandes intenções da Conferência de Aparecida é reafirmar a identidade própria da Igreja da América Latina. A retomada deste método significaria, sem dúvida, um significativo impulso no rumo deste propósito. Sinalizaria, com evidência, a caminhada eclesial que comprovou seu dinamismo usando este método, que foi bem assimilado e serviu de bom instrumento para impulsionar um processo pastoral em que as pessoas se sentem sujeitos de sua participação consciente na Igreja e na sociedade.
Isto ficaria ainda mais ressaltado, diante da opção feita na última Conferência, em Santo Domingo, onde este método foi propositalmente abandonado. Posso trazer um depoimento pessoal. Em Santo Domingo precisei coordenar a comissão de ecologia. Era o único assunto propriamente novo na Conferência, estimulado pela ECO 92. Pois bem, com a colaboração de assessores, e o bom desempenho da comissão, chegamos a produzir um bom texto, que tinha sua força maior no "ver", na constatação da consciência ecológica, como um dado da realidade que emergia com força, e que os teólogos liam como "uma visita de Deus à sua criação". Mas, como a Conferência tinha tomado a decisão de não seguir este método, o texto da comissão ficou descaracterizado, só sobrando algumas frases esparsas no documento final, perdendo todo o seu impacto.Teimosias podem ter conseqüências muito negativas.
O retorno do método, em Aparecida, teria portanto um significado eclesial bem definido.
Na verdade, o que está em jogo é mais do que um método. Está em jogo a natureza e a dinâmica do Evangelho. O Evangelho não consiste tanto em palavras ou relatos que se contam a respeito de Jesus. Consiste muito mais nas reações dele diante dos fatos de sua época, que nos iluminam a reagir do mesmo modo diante de fatos que vivemos hoje.
Daí a importância de ler os fatos na perspectiva da ação de Jesus e do seu Espírito. Assim a realidade se torna sacramento para mostrar como o Evangelho continua acontecendo também em nossa época, na medida em que agimos diante da realidade animados pelo exemplo e pelo Espírito de Jesus.
Aí encontramos uma perspectiva mais consistente para perceber a utilidade especial deste método. Partir da realidade não é mero capricho, ou estratégia redacional. É postura de quem se dispõe a abraçar a dinâmica do Evangelho.