A CONJUNTURA DA SEMANA
A análise da conjuntura da semana é uma (re)leitura das "Notícias do Dia" publicadas, diariamente, no sítio do IHU. A presente análise toma como referência as "Notícias" publicadas 27 de março a 04 de abril de 2007. A análise é elaborada, em fina sintonia com o IHU, pelos colegas do Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalhadores - CEPAT - com sede em Curitiba, PR, parceiro estratégico do Instituto Humanitas Unisinos - IHU.
Eis a análise:
A crise aérea
Uma crise anunciada que começou nos aeroportos e terminou nos "quartéis" com o amotinamento dos sargentos. Estava caracterizada a quebra de hierarquia. Algo inaceitável para os militares, que se sentiram também desprestigiados na negociação. O governo sentiu a pressão dos ministros das Forças Armadas e recuou. Passou a tratar os controladores de vôo como traidores e aquiesceu com a política de pressão vinda dos quartéis.
O testemunho de um controlador dá a dimensão do clima entre os responsáveis pelo tráfego aéreo. Os controladores interpretaram o recuo do governo como traição e contrariados cogitam nova paralisação. A complexidade da crise tem deixado o governo atordoado. Realizando movimentos pendulares, o governo oscila entre a negociação e o endurecimento. Por um lado, as alternativas à negociação praticamente inexistem, embora o governo fale em plano B.
Por outro lado, a paralisação dos aeroportos mexe com a classe média brasileira que estrila quando as coisas lhe incomodam. Amplificado pela imprensa - que aproveita para "bater" no governo -, a crise assume proporções de gravidade. Estamos diante de uma crise militar que pode ressuscitar os fantasmas de 64? Não. É a opinião da maioria dos analistas, entre eles Eliezer Rizzo de Oliveira, especialista em assuntos militares. Governo, militares, mídia e a classe média, entre outros, fazem parte de um roteiro explosivo. Ao que tudo indica a crise se arrastará ainda por algum tempo.
Uma outra "chave" de leitura da crise aérea
A "chave" de leitura convencional, e óbvia, da crise aérea é a que a trata como um fato conjuntural. Mas há uma outra "chave" de leitura sobre a crise aérea brasileira, sugerida a partir da afirmação do ambientalista francês Nicolas Hulot. Segundo ele, "temos que parar de crer que distância é igual à felicidade, que a beleza é proporcional à distância". Holot insiste em que "é preciso racionalizar os fluxos de transporte de mercadorias e pessoas". Ainda segundo ele, "o avião é útil entre continentes mas é preciso limitar o seu uso dentro de um mesmo continente. A época das viagens baratas deve acabar", afirma.
A "leitura" que tomamos a liberdade de sugerir a partir das afirmações de Nicolas Hulot -, é a de uma crise de civilização que subsumiu tudo ao econômico. Não é gratuito que um dos elementos de ampliação da crise aérea se deve ao fato de que a mesma atinge a classe média - em sua essência a grande consumidora de produtos, bens e serviços.
A percepção de Nicolas Hulot, de que passamos a associar distância à felicidade, e por isso a sofreguidão com viagens a todo momento e em qualquer feriado que se avizinha, traz à tona as reflexões de Nicholas Georgescu-Roegen (1906-1984), considerado o pai da economia ecológica, para quem o encolhimento da economia, em vez do seu crescimento, era o único caminho possível a ser seguido pela humanidade para evitar o seu impasse, anunciado agora, pelo relatório do IPCC.
Georgescu, já no seu tempo, quando ainda não se falava em aquecimento global, em sua radicalidade, declarava que o crescimento econômico infinito assentado sobre recursos naturais finitos era inviável e propunha encontrar uma via de desenvolvimento humano que fosse compatível com a retração da economia, isto é, com o decréscimo da produção. Georgescu não acreditava inclusive que um produto pudesse ser reciclado e criticava o amplo uso de material descartável. Uma séria de depoimentos sobre Georgescu-Roegen pode ser lidas na revista do IHU On Line n. 115.
Na perspectiva do pensamento de Georgescu-Roegen, entre outros, encontram-se ainda Ivan Illich e Serge Latouche. Para Illich (1926-2002), contundente crítico da economia contemporânea, "os sintomas de uma progressiva e acelerada crise planetária são evidentes". Para ele, "a crise radica no malogro da empresa moderna, isto é, na substituição do homem pela máquina. O grande projeto metamorfoseou-se num implacável processo de servidão para o produtor e de intoxicação para o consumidor". Para ele a sociedade da convivencialidade - que substitui um valor técnico por um valor ético - foi devorada pela sociedade produtivista orientada pelo consumo.
Serge Latouche, por sua vez afirma que "a sociedade do crescimento não é sustentável nem desejável". Para Latouche, a obsessão pelo crescimento econômico nos levará à destruição. "O nosso modo de produzir e de consumir é condenatório da existência humana", diz ele.
Ora, mas o que é isso tudo tem a ver com a crise aérea?
Aparentemente nada. Porém uma das "leituras" possíveis a partir da crise aérea é que a mesma é manifestação de uma crise maior, aquela que colocou a mobilidade humana e de mercadorias no centro de tudo. A idéia aqui é a mesma de Illich, apenas que no lugar do carro temos hoje o avião:
"Diga-me a que velocidade te moves e te direi quem és. Se não podes contar mais do que com os teus pés para te locomoveres, és um marginalizado, porque desde anos, o veículo se converteu em sinal de seleção social e em condição para a participação na vida nacional. Em qualquer lugar onde a indústria do transporte franqueou aos passageiros uma barreira crítica de velocidade, inevitavelmente se estabelecem novos privilégios para a minoria e prejudica a maioria".
Gol - modelo paradigmático e paradoxal do novo capitalismo
O modelo paradigmático da economia da mobilidade - distância é igual à felicidade e rápido deslocamento de pessoas e mercadorias - encontra na empresa aérea Gol o seu exemplo maior. A Gol é uma empresa incensada como sendo o exemplo do capitalismo do século XXI. "Low-fare, low-cost" (tarifas baixas, custo baixo) é o seu conceito de empresa, como manda o manual do capitalismo da lean production . Mas não pára por aí. A Gol é considerada também modelo de gestão na área informacional e nas relações de trabalho.
A contratação de funcionários manifesta a exigência da moderna ética no trabalho. Aquela em que se pede total dedicação à empresa. "O candidato tem que se empolgar, vibrar e até chorar quando a gente passa o vídeo institucional", afirma Rosangela Manfredini, diretora de Recursos Humanos da holding Áurea, responsável pelo recrutamento de profissionais da empresa aérea Gol. [Caderno Empregos, O Estado de S.Paulo, 17-8-03].
Um passo a mais da espetacular ascensão da Gol foi a compra da Varig. Originária do setor de transporte rodoviário, o grupo Áurea - controladora da Gol - reúne mais de 30 empresas, 4 mil ônibus e fatura R$ 1 bilhão por ano rivalizando com a Itapemirim no monopólio do transporte rodoviário - uma de suas últimas aquisições foi a Caxiense (Caxias do Sul - RS). O atual presidente da Gol, o empresário Constantino de Oliveira Júnior, com apenas 38 anos, já entrou para o seleto grupo de bilionários do planeta com direito à citação na revista americana Forbes por ser o mais jovem brasileiro a possuir um patrimônio de mais de US$ 1 bilhão.
O outro lado menos fulgurante da empresa é a notícia de que o seu proprietário está na lista de donos de fazenda com trabalho escravo. Constantino de Oliveira, pai de Constantino de Oliveira Júnior, está há 27 meses no cadastro dos empregadores que exploram trabalhadores chamados de "escravos". A propriedade fica em Correntina, um município de 30 mil habitantes no extremo oeste da Bahia, a 919 km de Salvador. Os trabalhadores libertados catavam raízes para limpar o terreno. Eles ganhavam de R$ 15,00 a R$ 27,00 por alqueire catado. Havia também pagamento por dia trabalhado: de R$ 6,00 a R$ 15,00. O dono da Gol diz que não sabia das condições.
Os dois 'brasis'
O Brasil do trabalho escravo não faz páreo para o Brasil que não pode parar. A crise nos aeroportos causa mais indignação à imprensa que o trabalho escravo na fazenda do proprietário da Gol ou da morte de um bóia-fria nos canaviais em São Paulo. Na mesma semana da morte do bóia-fria, pouco noticiada, o roubo de gravatas de grifes famosas por parte do Rabino Henry Sobel foi notícia em toda a grande imprensa. A novidade foi o tratamento tolerante dado pela imprensa e pelos formadores de opinião. Fosse um pobre que tivesse roubado, qual seria a abordagem?
O caso da morte do cortador de cana-de-açucar José Pereira Martins é elucidativo das lógicas que se operam no país. Nos canaviais, o Brasil que promete o futuro com o etanol for export convive com a morte de bóias-frias. A bilionária indústria brasileira da cana-de-açúcar, setor que promete faturar R$ 40,3 bilhões nesta safra, é um indiscutível caso de sucesso. Mas a fama da apregoada indústria sustentável (!?!), além de concentração fundiária e avanço sobre áreas sensíveis (como o Pantanal), impõe sofrimento para cerca de 260 mil trabalhadores que farão a partir dos próximos meses a colheita da maior safra de cana da história do País.
O Brasil, que com o novo cálculo do PIB voltou a figurar entre as maiores economias do mundo, não tem tempo para as notícias de que as usinas estão barrando trabalhadores que não atingem cota de produção elevada nos canaviais do interior de São Paulo. A exclusão atinge cortadores de cana com mais de 40 anos, os carteiras brancas (sem experiência) e aqueles com histórico de licenças médicas na ficha. A linha de corte seria uma produção mínima de 10 toneladas de cana colhida por dia.
Tampouco, o país tem mostrado disposição de discutir as conseqüências de uma aposta em larga escala na produção do etanol. Um debate mundial, motivado por Fidel Castro através de artigo no jornal Granma, afirma que o etanol condenará à morte prematura por fome e sede mais de 3 bilhões de pessoas no mundo. Parte da premissa de que a cana ocupará parte agricultável de terras que poderiam ser destinadas à produção de alimentos. Quem concorda com Fidel é o respeitado ambientalista Lester Brown que alertou para o fato que a "febre do álcool", impulsionada pelos EUA, fez o milho subiu 75%, em dólar, nos últimos 12 meses, ocasionando a chamada "crise da tortilha".
Washington Novaes alerta para o fato de que o debate sobre o etanol no Brasil está enviesado. Diz ele, "(...) sobre o etanol e o biodiesel, infelizmente focadas quase só nos aspectos econômicos dessas energias da biomassa, esquecidas da política de mudanças climáticas, das imprescindíveis discussões sobre a matriz energética (que coloquem eficiência energética e conservação de energia como prioridades, em lugar do aumento da oferta), das políticas para a expansão (onde e como) do agronegócio, de uma estratégia que coloque recursos e serviços naturais no centro de todas as políticas nacionais - por serem a grande vantagem comparativa do País".
Metáforas
A crise aérea e o debate em torno do tema do etanol transformaram-se em uma metáfora de um determinado Brasil. Por um lado, em aeroportos futuristas, as pessoas se encontram ilhadas. Reféns da economia da mobilidade encontram-se imóveis. Menos mobilidade, menos consumo, menos felicidade. Nas pistas e pátios de taxeamento dos aeroportos, uma de suas empresas, a Gol, símbolo da modernidade acabada do país, convive com notícias de prática de trabalho escravo. O Brasil do século XXI preso a amarras do século XIX. O mesmo Brasil que driblou a escravidão com "uma lei para inglês ver", torna uníssono a sua indignação com a sua imobilidade, porém não é capaz de reagir à altura com a prática hedionda da escravidão. Por outro lado, nas usinas de avançadas tecnologias, convive-se com o "suor, o sangue e a morte" de tantos trabalhadores e trabalhadoras. O Paraná, é um exemplo, entre tantos outros, do que acontece no Brasil.
Quem explica o Brasil?
As ambigüidades e contradições do Brasil, já abordadas na conjuntura da semana passada, aguardam análises e interpretações mais agudas. Nesta perspectiva vale a pena retomar a leitura do artigo de Marco Antonio Rocha que se pergunta onde estão os grandes economistas que auxiliavam com metanarrativas para a compreensão das sociedade, assim como as entrevistas com o sociólogo Rodrigo Estramanho e Gláucia Vilas Boas para quem tivemos uma geração grandiosa nos anos 1930, representada pelas obras de Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Jr e Gilberto Freyre, geração que semeou uma outra menos ensaísta, mas não menos importante, dentro da qual, as obras de Celso Furtado, Florestan Fernandes, entre outros. Mas e hoje?
Negro não gosta de branco?
A ministra Matilde Ribeiro, da Secretaria Especial de Política da Promoção da Igualdade Racial, em entrevista à BBC Brasil para lembrar os 200 anos da proibição do comércio de escravos pela Inglaterra, afirmou que é natural que um negro não goste de um branco. "Não é racismo quando um negro se insurge contra um branco", afirmou. E explicou: "Quem foi açoitado a vida inteira não tem obrigação de gostar de quem o açoitou". A afirmação deflagrou um intenso debate no país sobre a questão racial. A afirmação da ministra colocou em debate se marginalização dos negros é de caráter racial ou social.
O deputado federal Carlos Santana (PT-RJ), da Frente Parlamentar da Igualdade e Promoção Racial, saiu em defesa da ministra. Segundo ele, "quanto mais consciente, mais o negro percebe o quanto é marginalizado pelo branco". Para ele, a afirmação "deve ser vista dentro de um contexto geral, da história do Brasil, que foi sempre contada sob o ponto de vista dos brancos. Segundo essa história, nós somos descendentes de escravos - e não de povos africanos, com sua cultura, suas tradições. A ministra vai contra a idéia que as classes dominantes tentam impor de que não temos um problema racial, mas social", diz o deputado.
Para o sociólogo Demétrio Magnolli, contrariando Carlos Santana, a declaração da ministra Matilde Ribeiro foi uma clara incitação ao racismo. " É uma declaração essencialmente racista. Uma incitação ao ódio racial. Atribui aos brancos, como raça, os açoites que os negros, como raça, sofreram no passado. Interpreta a história como um conflito de raças". Para ele, "é falso definir como problema racial o que é na verdade um problema social e econômico."
José Carlos Miranda, coordenador do Movimento Negro Socialista, corroborando o pensamento de Demétrio Magnolli, diz que "o racismo que existe no Brasil é fruto dos abismos econômicos que separam classes sociais. Não é produto da opressão de 'brancos' contra 'negros', mas do princípio da desigualdade social que dissolve as esperanças dos trabalhadores de todos os tons de pele".
Por sua vez, José Vicente, presidente da Afrobras - Sociedade Afro Brasileira de Desenvolvimento Sócio Cultural, concordando com a ministra destaca que "o racismo contra negros na sociedade brasileira, seja em razão de raça biológica, raça social ou da cor da pele, é fato - superado, reconhecido e sancionado pelo governo brasileiro".
A antropóloga Yvonne Maggie, criticou duramente a ministra, "não é a primeira vez que dá essa declaração". Segundo ela, "toda vez que se fala em raça ou etnia no mundo contemporâneo, o risco de resvalar para o racismo é iminente, não importam as palavras. O problema é você dividir a humanidade em raças ou grupos étnicos. Raça é um conceito que foi abolido da ciência há muito tempo". O debate foi ampliado com o incêndio na Casa do Estudante da UnB, registrado em três apartamentos habitados por alunos africanos.
"Só para inglês ver"
O ponto de partida da afirmação da ministra aconteceu por ocasião da lembrança do bicentenário da abolição do comércio de escravos no Império britânico. A propósito, lembra o historiador Luiz Felipe de Alencastro, "é fantástico o fato que o Brasil conseguiu resistir por quase meio século à proibição da Inglaterra, a maior potência da época. Isso só se explica pela força política que [envolvidos com o tráfico] tinham". De 1807 até 1850 - quando o Brasil proibiu de fato o tráfico de negros -, há um período longo em que a diplomacia da Colônia e do Império negociaram frente à pressão inglesa. Uma lei de 1831 tornou o tráfico ilegal - mas "só para os ingleses verem", daí o ditado.
Para apimentar o debate, Alencastro comenta ainda a nomeação de D. Odilo Scherer para a Arquidiocese de São Paulo - 'Padres louros e padres negros' intitula-se o seu comentário.
A CUT sentiu-se traída por Lula
Com surpresa e uma boa dose de indignação. Foi assim que os sindicalistas ligados à CUT receberam a notícia da mudança de Luiz Marinho do Ministério do Trabalho para o da Previdência Social. A indignação foi tanta que alguns líderes sindicais voaram para Brasília para se reunirem com o presidente Lula. A CUT considera um retrocesso a saída de Marinho porque tinha nele o seu principal interlocutor para negociações como a do salário mínimo, terceirização e reformas sindical e trabalhista. A nomeação de Carlos Lupi (PDT) como novo ministro do Trabalho faz parte da chamada governabilidade que deseja Lula, a formação de uma grande coalizão.
O PDT, bastante ligado à Força Sindical, exigiu o Ministério do Trabalho porque permite a nomeação de uma série de seus "quadros" nas delegacias regionais de trabalho. A indignação da CUT está associada a perda de espaço para a sua arqui-rival inimiga, a Força Sindical. "Desde a posse de Lula a Força tem atirado pedras no governo e nós, ao contrário, o apoiamos em diversas situações, a ponto de ouvir críticas de que nos tornamos uma central chapa-branca", desabafou um sindicalista da CUT.
Crise no transporte coletivo chileno expõe fragilidade da "Concertação"
O descontentamento com o novo projeto de transporte coletivo instalado em Santiago, na capital chilena, foi o estopim da segunda maior crise enfrentada pelo governo Bachelet. O projeto chamado de 'Transantiago' modificou todas as rotas do transporte coletivo, coordenando-os com o metrô e diminuiu o número de ônibus das linhas mais periféricas, gerando protestos que culminaram na queda de quatro ministros. Os protestos coincidiram com a comemoração do Dia do Jovem Combatente, em alusão ao assassinato de dois irmãos - Rafael e Eduardo Vergara Toledo, mortos no Bairro Francia, zona emblemática da rebelião contra a ditadura de Pinochet - durante o regime pinochetista, em 29 de março de 1985.
No ano passado, o governo Bachelet teve que enfrentar as manifestações dos estudantes secundaristas por melhores condições de ensino no país. As manifestações ficaram conhecidas como os protestos dos 'pinguins', uma referência ao uniforme escolar.
Diga-se de passagem, que a moderna frota de ônibus que passou a circular pelas ruas de Santiago foi encomendada à Volvo, de Curitiba, PR. Segundo informações obtidas em visita à fábrica, situada na Cidade Industrial de Curitiba, e realizada no final de 2005, a encomenda foi da ordem de mil veículos.
A crise do 'Transantiago' é, a bem da verdade, uma crise da "Concertação", a aliança política que governa o país desde a redemocratização. A "Concertação" elegeu dois presidentes da Democracia Cristã (Alwin e Frei) e dois do Partido Socialista (Lagos e Bachelet).
Teologia da Libertação: pertinências e desafios
Para a análise que segue, tomamos como referência básica não as Notícias do Dia, como normalmente fazemos, mas a Revista IHU On-Line, de 28-03-2007. A Teologia da Libertação é o tema de capa deste número da Revista, que reúne as entrevistas de Leonardo Boff, José María Vigil, Faustino Teixeira, João Batista Libânio, Luiz Felipe Pondé e John Milbank. As entrevistas incursionam em temas relativos à pertinência desse tipo de Teologia produzido na América Latina, à 'Notificação' do Vaticano dirigida a Jon Sobrino, um dos principais teólogos desta Teologia, sua repercussão às vésperas da V Conferência do Episcopado Latino-americano e Caribenho em Aparecida do Norte, em maio próximo, bem como sobre os desafios para a reflexão teológica na América Latina.
A recente notificação da Congregação para a Doutrina da Fé sobre duas obras de Jon Sobrino coloca novamente em pauta a Teologia da Libertação. Para Faustino Teixeira (salvo indicações em contrário, estaremos sempre nos referindo às entrevistas acima citadas), a notificação é uma expressão da "dificuldade, resistência e oposição de segmentos romanos contra esta forma profética de reflexão teológica", travada na América Latina.
Para Leonardo Boff, a reação de Roma se deve a que "está perdendo a batalha contra a Teologia da Libertação". Gritos ecoam por toda a América Latina (o grito dos oprimidos, das águas, das florestas, dos animais) e que não podem mais ser abafados. Dentro deste contexto a voz de Jon Sobrino é um "incômodo à ideologia vigente no Vaticano, cujo objetivo é articular a Igreja Católica com os poderes emergentes".
Um dos pomos da discórdia reside na afirmação, por parte da Teologia da Libertação, de uma nova hermenêutica que envolve uma ortopráxis. Para João Batista Libânio, "a Teologia da Libertação desviou o lugar de interpretação (...) no sentido de fazer a pergunta à Revelação e, portanto, de influenciar nas respostas". Argumenta que essa é uma tarefa em si legítima, pois "pertence à natureza do conhecimento humano interpretar a situação em que vive". A novidade estaria em que "a teologia escolheu a práxis, não no sentido marxista (...), mas no sentido da opção de Jesus pelos pobres".
A Teologia feita a partir do contexto da América Latina e do lugar dos pobres propugna a primazia da ortopráxis sobre a ortodoxia. "O que salva de fato não é a ortodoxia, mas a ortopraxia, não as prédicas, mas as práticas", afirma Boff. Para Teixeira, "instaura-se a exigência de uma nova hermenêutica, que não é simplesmente existencial, mas práxica", decorrente do seguimento de Jesus. Sobre o método, Boff ainda diz o seguinte: "O método é mais que método. É uma verdadeira conversão pessoal e institucional. Quando partimos da realidade, encontramos, escandalosamente à vista, os pobres e os oprimidos".
"Toda hermenêutica fundada na prática pode soar excessivamente aberta e relativa para quem observa a pós-modernidade como lócus essencial do niilismo hermenêutico e ético. Uma hermenêutica muito dependente da prática pode soar dissolutiva das identidades em questão (social, política ou teológica)", pondera Luiz Felipe Pondé. Para o teólogo anglicano inglês John Milbank há, ao contrário dos teólogos latino-americanos, uma inseparabilidade entre ortodoxia e ortopráxis. Na sua opinião, "o Papa Bento XVI está certo ao dizer que a 'ortodoxia' sempre inclui tanto a prática correta, como a teoria correta. As duas são inseparáveis e nenhuma tem prioridade sobre a outra. A idéia de uma prioridade da prática sobre a teoria é incoerente, já que toda prática contém uma teoria implícita e a projeção de um horizonte teórico".
Na nova hermenêutica há uma centralidade da Igreja dos pobres, que ganha força no e a partir do Concílio Vaticano II e de modo especial na sua aplicação ao contexto latino-americano. Teixeira cita uma passagem da carta de Jon Sobrino ao Pe. Geral dos Jesuítas na qual afirma que a igreja dos pobres constitui "o lugar eclesial da cristologia por ser uma realidade configurada pelos pobres". Esta opção metodológica tem, segundo Libânio, conseqüências pastorais e teológicas que dizem respeito ao poder e aos ministérios dentro da própria Igreja. Retomando o famoso historiador católico Jean Delumeau, Libânio enfatiza que "o poder não evangeliza, especialmente quando assume as tonalidades dos reinos da terra". Para ele, continuam como desafios para o futuro da Igreja a sua estruturação em comunidades de base e os ministérios, que podem assumir novas configurações.
Para Milbank, no entanto, é um erro ver a igreja dos pobres como o primeiro contexto para a hermenêutica. Isso porque "é limitar-se a um pseudo-radicalismo, que não permite o julgamento crítico que extrai sua plena força da tradição cristã. Enxergar o primeiro contexto como o desenvolvimento da tradição vai de fato permitir-nos mais, e não menos críticas drásticas da realidade corrente", defende.
Não teria a Teologia da Libertação acreditado demais nas promessas da modernidade?
O Concílio Vaticano II realizou um aggiornamento da Igreja, especialmente com a modernidade européia. De certa forma, a Igreja faz as "pazes" com o mundo moderno. A Igreja latino-americana, foi em boa medida, mais cética para com os progressos da modernidade ao fazer uma "opção preferencial pelos pobres". A opção vem como para dizer que a modernidade, entre outras coisas, produz pobres. A realidade de um capitalismo que produz e multiplica os pobres por todo o continente e a convicção de uma Igreja que, para ser luz no mundo, deve colocar-se ao lado dos mais empobrecidos, em fidelidade ao Evangelho, justificaria a existência da Teologia da Libertação.
As entrevistas da Revista desta semana suscitam um outro debate que diz respeito à matriz de fundo da Teologia da Libertação. Pondé, mesmo reconhecendo que a Teologia da Libertação "não tem nada de caduca em termos práticos e da microfisiologia do cotidiano teológico nas comunidades religiosas, de leigos, ou acadêmicas" e que segue "hegemônica, pelo menos no seu viés de análise socioanalítico", pergunta: será que ela não "peca por crer demasiadamente nas promessas modernas e na sua gramática hermenêutica?"
Milbank também reconhece qualidades na Teologia da Libertação, mas suspeita que ela entrou de cabeça na modernidade: "De fato, eu penso que foi infeliz ela ter aceito com demasiada facilidade a idéia de que a secularização, significando a autonomia sob a razão do mundo secular, é um desenvolvimento essencialmente cristão".
Na seqüência, o teólogo inglês enumera as suas críticas à Teologia da Libertação. Por sua pertinência para este debate, as sintetizamos aqui. Uma primeira, diz respeito ao abandono daquilo que ele chama de "pensamento social cristão", especialmente aquele da França e Grã-Bretanha. "Toda a tradição anterior foi muito mais antiesclarecimento, antiestatismo e de caráter não-violento. Ela destilou bem mais a sua crítica da sociedade diretamente da teologia...".
Uma segunda crítica é que ela "tende a ter uma teologia da secularização e uma teologia da ação moral individual, porém, curiosamente, não muita eclesiologia e uma teologia real do político e do social! Isso é porque ela deriva sua análise e crítica da sociedade de fontes seculares, e não da teologia."
A terceira observação que Milbank faz é a seguinte: "Ela dispensa com demasiada facilidade a doutrina social católica e, conseqüentemente, falha ao não absorver suas mensagens sobre associações intermediárias, sobre os princípios de subsidiariedade e setorização, a importância de corporações fora do Estado e a necessidade de suplementar a democracia a partir da doutrina e orientação da verdadeira sabedoria."
Interessante a dupla menção que Milbank faz ao Estado, na primeira e na terceira crítica. Aqui merece menção a visão crítica que o movimento social (Movimento Zapatista, no México, parte do movimento social brasileiro, movimento auto-gestionário argentino...) e intelectuais (John Holloway, por exemplo) fazem ao Estado. Este Estado, um dos frutos da modernidade, que se tornou incapaz de responder aos anseios das sociedades e se tornou, em grande medida, anacrônico. O que Milbank parece sugerir é que há destinos entrelaçados na medida em que a Teologia da Libertação desenvolveu um filão teórico que a aproxima do Estado.
O próprio Milbank em outro momento de sua entrevista reconhece que hoje "vemos resistências muito mais interessantes a uma ulterior 'acumulação primária' na América Latina, com um questionamento muito mais radical e pertinente de toda a economia liberal direcionada para as luzes do esclarecimento".
Uma quarta crítica de Milbank diz respeito aos autores que a Teologia da Libertação privilegiou. "Ela tende a seguir Rahner mais do que Lubac e von Balthasar no referente ao natural desejo do sobrenatural. Por isso, ela segue uma linha menos radical que vê a natureza em demasia como formalmente complementável sem a graça - uma linha que em sua origem já é demasiado kantiana e da contra-reforma. Isso ocorre em parte porque ela tende a conceder demasiada autonomia à esfera secular", sustenta Milbank.
Observação semelhante faz Pondé, quando afirma, no contexto da polêmica entre a Teologia da Libertação e Bento XVI, que "as melhores cabeças [da Teologia da Libertação] continuam sendo formadas na Teologia da Libertação, ou seja, nosso clero ainda vive sob o impacto de uma visão sócio-analítica do mundo. Logo, o Bento XVI não tem com quem conversar... É preciso conhecer muito da obra de Von Baltazar (teólogo suíço alemão morto em 1988) ou de Henri de Lubac (teólogo francês), decisivos na formação do Bento XVI, mas quase desconhecidos por grande parte da formação teológica brasileira. Logo, falta recurso para entender de onde veio o pensamento deste papa". Por isso, na entrevista publicada na Revista enfatiza que "a formação dos teólogos deve sair do repertório dependente da análise sociopolítica e ler os pais fundadores do cristianismo e não só aquilo que reforça sua semelhança com a militância política na América Latina".
Em outro momento de sua entrevista, Milbank formula outra crítica à Teologia da Libertação. Diz: ela "obscurece o potencial radical no próprio ensinamento social papal que, em certos aspectos, está muito mais em sintonia com as novas correntes radicais. Eu penso, portanto, que a questão [que envolve a notificação de Jon Sobrino] é simplesmente teológica - a saber, que a Teologia da Libertação torna situações seculares e teorias seculares demasiado normativas para a teologia e, conseqüentemente, chega a conclusões que são pouco ortodoxas".
Assim, com esse número a Revista IHU On-Line traz elementos para um debate que apenas está em seus primórdios. As grandes questões que esse debate levanta giram em torno da questão da modernidade e da tradição. No fundo, levantam-se diversas questões: assumir com força a modernidade permite uma crítica radical da modernidade? O que significa fazer teologia a partir de um contexto (histórico, social, político, religioso, econômico, cultural) particular sempre aberto àquilo que Milbank chama de "pensamento socialista cristão"? Não foi a Teologia da Libertação afetada em demasia por teorias seculares?