A CONJUNTURA DA SEMANA
A análise da conjuntura da semana é uma (re)leitura das "Notícias do Dia" publicadas, diariamente, no sítio do IHU. A presente análise toma como referência o que foi publicado de 20 a 26 de março de 2007. A análise é elaborada, em fina sintonia com o IHU, pelos colegas do Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalhadores - CEPAT - com sede em Curitiba, PR, parceiro estratégico do Instituto Humanitas Unisinos - IHU.
Eis a análise
A ambiguidade do governo Lula. Um governo cada vez mais a direita e... popular
Ao longo da última semana, Lula chamou os usineiros de heróis, nomeou um ex-arenista com serviços prestados à ditadura militar e aos governos Collor e FHC para o ministério da Agricultura e um executivo com excelentes serviços prestados ao capital produtivo e financeiro para o Ministério de Desenvolvimento. Derrotou o movimento social na disputa da composição da CNTBio e manifestou determinada decisão de tocar para frente a transposição do rio S. Francisco contra as propostas alternativas do movimento social. De quebra, recebeu rasgados elogios - irônicos - do megainvestidor George Soros e para arrematar terminará a semana nas montanhas de Maryland nos EUA com Bush para avançar nas tratativas do acordo bilateral de biocombustíveis e as negociações em torno da Rodada Doha, de comércio exterior.
Ao mesmo tempo em que Lula despachava com desenvoltura no Palácio do Planalto, informações davam conta que diretores do Banco Central realizaram reuniões secretas com executivos de instituições financeiras. O acontecimento é significativo e indicativo do que se transformou o governo Lula, um governo que flerta perigosamente com os interesses do mercado financeiro.
A interpretação dos fatos anteriores permite uma inequívoca conclusão sobre o governo Lula. É um governo cada vez mais à direita. Um governo política e economicamente conservador. Paradoxalmente, e aqui vem a surpresa, sustentando altos índices de popularidade, principalmente entre os mais pobres.
A "4º guerra mundial" e as chances perdidas
Na política internacional e doméstica, o governo Lula afasta-se cada vez mais de um protagonismo que era esperado quando da sua eleição.
No cenário internacional, depois de um início promissor de reação à agenda da ALCA e da articulação do G-20 e G-3, o Brasil vai mostrando acovardamento na sua política externa e sucumbe à lógica da mercadorização. Submete-se ao mercado financeiro - o Pós-Consenso de Washington; à lógica dos transgênicos; ao agrocombustível do etanol; à rejeitada energia nuclear, ao hidronegócio.
Aceita uma posição subalterna na "4º guerra mundial", como define o subcomandante Marcos, para quem o capitalismo provocou uma "Quarta Guerra Mundial", onde os territórios dos países pobres são disputados, pois são ricos em recursos naturais. A nova etapa do capitalismo, segundo o Delegado Zero, compreende que o mercado converta em mercadoria bens como a água, a terra e o genético.
O Brasil parece não perceber que frente à crise epocal, desencadeada pelo aquecimento global, joga um papel estratégico. No contexto da crise ambiental, o país abre mão de utilizar racionalmente os recursos naturais limitados e parte com tudo para uma matriz energética tributária da Revolução Industrial. Perde uma vantagem comparativa excepcional com a sua inestimável biodiversidade e se iguala aos outros países.
Regionalmente o Brasil, considerando o seu peso econômico - em que pese o discurso da integração regional -, tem feito muito pouco. Num momento em que para muitos sopram novos ventos na América Latina e se abre a possibilidade de um duro questionamento da nova ordem econômica internacional, o país não exerce a liderança esperada.
Na opinião do sociólogo Francisco de Oliveira o país já dá sinais de uma espécie de sub-imperialismo no continente latino-americano e cita o caso da Petrobras. Diz ele, "não é à toa que a Petrobras tem 15% do PIB boliviano, o que muda a estatura do Brasil em relação aos seus vizinhos. Quando o Evo Morales tomou aquelas decisões, José Sérgio Gabrielli, presidente da Petrobras, saiu como se fosse um Nelson Rockfeller, falando desaforos sobre o presidente da Bolívia".
A Petrobras, diga-se de passagem, amplia os seus tentáculos sobre a economia latino-americana e nacional com a aquisição da Ipiranga. Mas há uma novidade aqui. Ela o faz através de um consórcio com o capital privado para ampliar os seus domínios. A outra novidade que emerge em um dos maiores negócios da história corporativa do Brasil é o peso cada vez maior da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff.
A reprodução dos métodos da "República Velha"
Internamente, o governo Lula reproduz a política da "República Velha". Acertos, conchavos, composições esdrúxulas e "esquecimento" da história como se vê na formação do seu "ministério ornitorrinco", um animal na definição do sociólogo Francisco de Oliveira, que não tem nem futuro nem passado, um bicho que bota ovo, mamífero cujos filhotes não mamam em tetas pois é o leite que escorre, tem bico de pato, esporão venenoso - um truncamento total.
A composição do novo ministério de Lula é emblemática. Não revela um projeto de país. Trata-se de um ajuntamento de ministros que atende a obsessão de Lula por uma ampla coalizão para neutralizar a oposição. É um ministério lulista.
Ao lado do "modo lulista" de fazer política e não "mais petista", observa-se o fenômeno do neolulismo.
Sem amarras, Lula vai surpreendendo a direita e a esquerda. "Ele é amigo nosso", afirmou um tanto espantado e incomodado, o maior usineiro do país, Rubens Ometto - que entrou recentemente na lista de bilionários da Forbes e com seus pares recebeu , de Lula, o título de herói. Há nove anos atrás, segundo Lula, os usineiros eram 'caloteiros do BB'.
Na outra ponta, para um incrédulo João Pedro Stédile, "a frase do Lula foi muito infeliz. E foi sobretudo uma ofensa aos milhões de assalariados rurais, bóias-frias, superexplorados na monocultura da cana que votaram nele. Foi uma afronta (...)". Stédile repercutiu o que também pensa a Comissão Pastoral da Terra (CPT) e o receio que o Brasil "se transforme num imenso canavial", nas palavras da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).
A preocupação tem uma razão de ser. Junto com a cana-de-açúcar vem a miséria e a superexploração do trabalho humano. O "suor, o sangue e a morte" acompanham o açúcar e o álcool. O debate em torno da monocultura revelou também algo desconhecido, a de que um dos maiores investidores de álcool no Brasil é o megaespeculador George Soros.
O agronegócio de um lado, o hidronegócio do outro
O governo dá mostras que é pra valer o projeto de transposição do rio S. Francisco. O novo ministro, já manifestou que dará continuidade "a essa grande iniciativa' e a obra ganhou um novo alento com a aprovação do Ibama.
Do outro lado, o movimento social promete resistir tendo em d. Luiz Flávio Cappio, o seu principal porta-voz, que nessa semana em artigo afirmou: "o rio está numa UTI e um anêmico não pode doar sangue". Cappio reafirma que a transposição "é um projeto autoritário, que enfia goela a baixo do brasileiro algo contestado e que divide. Foi preciso ficar 11 dias em jejum para ter uma anistia por uns dias. Ganhamos a luta, mas não a guerra". Segundo ele, "governo Lula precisa ser sensível e ouvir o clamor do povo. Não pode impor de forma autoritária uma ação, como vem fazendo".
Anuncia-se, desta maneira, aquela que poderá vir a ser a maior batalha do movimento social contra o governo do operário Lula. E a batalha já começou com o movimento social promovendo ato de enterro simbólico de três ministros e do presidente Lula.
Como explicar a ambigüidade?
O governo Lula revela uma ambigüidade aparentemente incompreensível. Na política, na economia, nas decisões, na agenda para o país se mostra cada vez mais um governo de direita e conservador. Porém, é ao mesmo tempo um governo popular. De identificação com o povo e, sobretudo, com os pobres. Como explicar essa ambigüidade?
A resposta está em aberto. Algumas entrevistas feitas pelo sítio do IHU e publicadas nas Notícias do Dia contribuem para a reflexão. Entre elas, destacamos a opinião de José Comblin para quem "Lula não quer o apoio popular e tem medo dele". A frase cifrada de Comblin remete para a interpretação que Lula optou por um projeto político de conciliação de classes. Não deseja rupturas e por isso mesmo não deseja o apoio popular e até o teme caso venha a pressioná-lo por mudanças radicais.
Na opinião do sociólogo Francisco Oliveira o neoliberalismo, esvaziou a política e Lula não fez nenhum movimento para se opor a esse processo. Para ele as decisões no Brasil são tomadas "no Banco Central, nas agências reguladoras, cuja característica importante é que todas estão fora da vontade política, nenhuma passa pelo crivo da vontade popular". Em sua opinião no Brasil "se formou uma sociedade de consenso conformista, o que retira as força de condições contestadoras".
Segundo o sociólogo, Lula "transformou a miséria em um problema de administração, o que retira qualquer capacidade contestadora". O sociólogo destaca que "o Estado está legitimando a miséria, porque a transforma em um problema de administração. Tem o Bolsa Família que administra uma parte do bolo e mesmo a Renda Mínima é uma invenção neoliberal. Para o socialista clássico, a miséria e a pobreza eram um desafio; para os administradores modernos, a miséria e a pobreza são um problema de gestão", diz ele.
Sobre o Bolsa Família, o maior programa social de Lula, Francisco Oliveira afirma: "Sou cristão. Éticamente sou cristão, mas não sou religioso. Fui formado na ética cristã, como todos nós, o que me obriga a não ser indiferente a um programa como o Bolsa Família. Porque estou de barriga cheia e os que são alvo do Bolsa Família não estão de barriga cheia, mas não posso ser cínico e dizer que o Bolsa Família não muda a realidade das pessoas. Mas o meu outro lado me obriga a dizer que esse tipo de programa só reitera essa situação, mesmo que acrescente dez reais à renda dessas famílias. Não desprezo porque estou de barriga cheia, mas acho esses programas uma capitulação frente à desigualdade".
O ex-ministro da Justiça e jurista Márcio Thomaz Bastos, tem outra opinião. Para ele, "Lula é uma grande liderança política, como talvez nunca tenha havido no Brasil. Daqui a alguns anos, a era Lula será citada como a mais nítida e a mais importante do Brasil. Vai obscurecer muitos outros presidentes. Será um marco tão importante que provocará efeitos nas outras gerações, como Getúlio provocou. Lula sabe que, nesse mandato, ele joga a sua sorte de grande líder e presidente". Para o ex-ministro, Lula tem chance de ser candidato à presidência da República em 2014, pois "é uma liderança com nitidez e prestígio no mundo inteiro. A figura do Lula e o seu governo provocam admiração no Brasil e lá fora. É um homem saudável, que se cuida mais no governo. Está mais vaidoso".
A popularidade de Lula, na opinião de Bastos estaria vinculada ao que chama de três ressurreições. A primeira: superou os obstáculos da saga de um nordestino pobre que migra para o Sul e melhora de vida. A segunda é política. Funda o PT. E perde quatro eleições majoritárias, uma atrás da outra. Quando todos o consideravam carta fora do baralho, renasceu com a reeleição de 2002. A terceira foi a crise de 2005, na qual ele perdeu a liderança nas pesquisas, sofreu baixa de popularidade, recuperando-se em 2006.
Aloísio Teixeira, reitor da UFRJ, avalia que "governo Lula em 2002 desencadeou uma expectativa muito forte em todos aqueles que imaginavam que o Brasil pudesse ter uma trajetória diferente. E acho que essas expectativas se frustraram por ele chegar ao governo num momento em que eram postas em dúvidas as políticas que vinham sendo seguidas e implementadas até então. Certamente, o eleitorado que elegeu o Lula em 2002 queria uma mudança, se não não o teria escolhido. Então, essa expectativa se frustrou".
Sobre o segundo mandato afirma que "as experiências desses primeiros meses do segundo governo mostram que os mecanismos tradicionais da política acabaram se consolidando no governo Lula. Quer dizer, a forma como se conduz a política de alianças, a forma com que questões importantes da vida social brasileira são tratadas".
Refletindo sobre a drama da educação brasileira é taxativo: "Não adianta a gente imaginar que vai ter um sistema educacional maravilhoso numa sociedade cuja economia reproduz a desigualdade e a miséria".
A economia e o mercado aparecem como elementos chaves na reflexão do economista Ricardo Abramovay. Em entrevista ao sítio do IHU, afirma que corremos um risco com a rendição de todos ao 'valor' mercado. Segundo ele, "a política, a religião, os laços íntimos não passam necessariamente por mercados". Porém adverte: "mas mercados não são a anti-humanidade e esta idéia precisa ser um ponto de partida. Como devemos agir engloba a segunda dimensão da pergunta: para a luta contra a pobreza (para ir a um ponto essencial, sob o ângulo do desenvolvimento), a inclusão em mercados e a construção de melhores mercados, como bem o assinala o prêmio Nobel de Economia, Amartya Sen, é um objetivo muito importante".
A análise de Abramovay remete para o discurso inclusivo de Lula, que repete à exaustão que o crescimento econômico é a porta de entrada para que todos possam ter acesso ao mercado.
Por sua vez, João Pedro Stédile , sinaliza que o governo Lula - na perspectiva dos movimentos sociais - se foi, tanto que Stédile tem enviado uma mensagem que circula na internet, com a foto de um copo de cristal que se quebra: "Tim-tim!!! Brindando aos novos heróis de um presidente que abandonou os brasileiros que trabalham em canaviais à sua própria desdita".
O "brinde" vem acompanhado da canção "Mentiras", de Adriana Calcanhotto:
"Nada ficou no lugar/
Eu quero entregar suas mentiras/
Eu vou invadir sua aula/
Queria falar sua língua/
Eu vou publicar seus segredos/
Eu vou mergulhar sua guia/
Eu vou derramar nos seus planos/
O resto da minha alegria/
Que é pra ver se você volta/
Que é pra ver se você vem/
Que é pra ver se você olha pra mim".
América Latina, segundo maior mercado para pobres
A América Latina é o segundo maior mercado no mundo para as empresas que oferecem produtos e serviços aos pobres, atrás apenas da Ásia. Porém, representa um mercado de mais fácil acesso, segundo relatório conjunto do IFC (braço do Banco Mundial para o setor privado) e do Instituto Mundial de Recursos. A vantagem do continente latino-americano está, segundo o relatório, na urbanização mais intensiva. "A América Latina é muito mais urbana, inclusive no segmento de baixa renda", disse Allen Hammond, vice-presidente do Programa de Empreendimento para Projetos Especiais e Inovação Sustentável, do Instituto Mundial de Recursos, em entrevista por telefone. "Do ponto de vista empresarial, ter distribuição para as favelas é mais fácil do que distribuir para áreas rurais", afirmou.
A América Latina tem uma base de pirâmide com 360 milhões de pessoas (70% do total) e com um poder de consumo de US$ 509 bilhões por ano (28% do total da região).
Para Hommond, a inovação tecnológica é fator nada desprezível em se tratando de atingir o setor informal da economia: "O celular transformou as vidas da base da pirâmide mais do que toda a ajuda ao desenvolvimento colocada junta", afirmou. "Se você trabalha na economia informal, se você pinta casas e limpa casas, como as pessoas vão te contratar se você não tem um celular".
Banco do Sul inquieta concorrentes
O Banco do Sul mal foi concebido e inquieta meio mundo. Concebido para iniciar suas operações no primeiro semestre de 2008, com um capital inicial de 7 bilhões de dólares, já conta com a participação da Venezuela, Argentina, Bolívia, Equador e Uruguai, e o interesse da Nicarágua. Brasil, Paraguai e Chile estão analisando os prós e contras do novo projeto.
A posição do Brasil mudou ao longo dos acontecimentos. De uma posição inicial contrária, o Brasil adotou postura que inclui a participação na discussão do projeto, mas com vistas a fazer ver que a criação do Banco do Sul é um objetivo de longo prazo e propõe outras medidas imediatas de financiamento da região. O governo brasileiro argumenta que não há necessidade de uma nova instituição financeira na região.
A criação do Banco do Sul divide, portanto, o continente, mas também atrai as atenções do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e as inquietações dos Estados Unidos.
O Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) anunciou uma nova agenda de trabalho contra a pobreza durante o encerramento da 48ª Assembléia de Governadores da entidade. A apresentação aconteceu à sombra do surgimento de um potencial concorrente da instituição multilateral, o Banco do Sul.
O Banco do Sul se apresenta um forte concorrente do BID e da Corporação Andina de Fomento. Além disso, dependendo da posição do Brasil, o BID teme que possa se ver reduzido a um Banco apoiado pelos Estados Unidos, México e Colômbia. Nada poderia ser pior. Neste contexto geopolítico, em que o Brasil joga papel decisivo deve-se ressaltar a posição tímida, apesar da mudança de postura que houve. Esperar-se-ia uma postura mais corajosa.
Desbaratada ligação do governo colombiano com grupos paramilitares
Três notícias desta semana dizem respeito aos paramilitares na Colômbia. A primeira é uma confissão de uma empresa norte-americana do setor de bananas, reconhecendo sua contribuição no financiamento de paramilitares para protegerem suas plantações.
A segunda é um relatório da CIA que revela ligações do Exército colombiano com grupos paramilitares. O relatório incrimina diretamente o comandante do Exército colombiano, o General Mario Montoya, dizendo que este manteve ampla colaboração com grupos paramilitares da direita, entre eles um grupo chefiado por um dos principais traficantes de drogas do país. A notícia depõe contra o Plano Colômbia, mediante o qual os EUA dão uma ajuda anual àquele país de 700 milhões de dólares, o que significa a terceira maior assistência externa americana. A revelação significa uma "bomba" no Plano Colômbia e dá argumentos aos setores contrários ao mesmo, tanto nos Estados Unidos como em toda a América Latina.
A terceira notícia faz referência ao problema dos refugiados colombianos vindos ao Brasil. O relatório de uma missão da ONU indica que a situação de guerra na Colômbia tem um impacto cada vez mais forte no Brasil. Brasília informa que há oficialmente apenas 4 mil refugiados, mas funcionários do alto escalão da ONU dizem que esses números podem chegar tranqüilamente a 20 mil. Convém lembrar que o Brasil não é o único país a receber refugiados colombianos. O fato é que a guerra civil está gerando uma situação de insegurança social e de deslocamento de pessoas muito grande. Uma situação que merece ser acompanhada com atenção.
Jon Sobrino: continente inteiro é visado
As Notícias do Dia desta semana continuaram a ecoar a condenação sofrida pelo teólogo Jon Sobrino. Leonardo Boff aliou sua solidariedade escrevendo uma carta a Jon Sobrino a quem chama de "companheiro de tribulação". Aludindo à Notificação do Vaticano, diz: "Jon, amigo e irmão: A 'notificação' da Congregação para a Doutrina da Fé (ex-Santo Ofício) condenando opiniões suas sobre Cristo porque não se coadunariam com a fé cristã, me encheu de profunda tristeza. Vi funcionar contra você o mesmo método e a mesma forma de argumentação usados contra mim com referência à doutrina sobre a Igreja. O método é o do pastiche que consiste em pinçar partes de frases, combinadas com outras e assim criar um sentido que não corresponde mais ao que o autor escreveu. Ou então fazem-se distorções de textos de forma que o autor não se sente mais nele representado".
Em outro momento, Boff denuncia a força do grupo conservador colombiano dentro do Vaticano. Para Boff, Jon Sobrino é "o melhor teólogo da América Latina". Segundo ele, "o Papa quer uma Igreja hierarquicamente forte com uma doutrina rigorosa, com uma liturgia fossilizada".
Para o teólogo Fernando Altemeyer, da PUC de São Paulo, as razões da condenação de Sobrino encontram-se nas diferenças entre a Cristologia latino-americana e a européia.
Mas a solidariedade não é apenas a Jon Sobrino. Há também solidariedade à Notificação do Vaticano, como a que apresenta o porta-voz da Conferência Episcopal espanhola.
No final das contas, a viva impressão é a de que a Notificação não quis visar apenas uma pessoa, no caso Jon Sobrino, mas um continente inteiro, no caso a América Latina, às vésperas da 5ª Conferência do Episcopado Latino-americano (CELAM).
Dom Odilo Scherer, arcebispo de São Paulo e homem da instituição
No dia 21 de março saiu a nomeação do novo arcebispo para a Arquidioceses de São Paulo, a terceira maior em fiéis do mundo: Dom Odilo Scherer. Dom Odilo sucede a d. Cláudio Hummes que foi nomeado, em 31 de outubro de 2005, para a Congregação do Clero.
Quem é d. Odilo? Natural de Cerro Largo, RS, no entanto passou sua infância em Toledo, PR, para onde seus pais se mudaram quando tinha apenas três anos. Cresceu e trabalhou na roça, de onde saiu para seguir carreira eclesiástica. Foi ordenado padre em 7 de dezembro de 1976 e sagrado bispo, pelo próprio por d. Cláudio Hummes, em 2 de fevereiro de 2002. É mestre em Filosofia e doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana, de Roma.
Dom Odilo é bastante próximo à Cúria Romana. Entre 1994 e 2001 foi oficial da Congregação para os Bispos, órgão responsável por analisar os postulantes à chefia das dioceses. Por essa razão, muitos o consideram o bispo brasileiro que mais conhece o episcopado nacional. Em Roma, granjeou simpatias que se tornaram trunfos para a sua nomeação. Trilhou seu caminho sempre mantendo uma distância em relação à Teologia da Libertação. Foi bispo auxiliar da Arquidiocese de São Paulo e é o atual secretário-geral da CNBB.
O que parece ter pesado a seu favor é o fato da sua eficiência. Há a opinião de que "ele é visto como um bispo disciplinado e rigoroso, que preza pela eficiência, algo tido como essencial para uma arquidiocese que convive com praticamente todas as tendências do catolicismo e precisa conferir alguma organicidade ao conjunto".
No entanto, as opiniões sobre d. Odilo divergem. Há os que vêem sua nomeação com simpatia, com deferência e os que a vêem como encaminhamento lógico da orientação imposta à Igreja por João Paulo II e seguida por Bento XVI.
Para Fernando Altemeyer Júnior, ex-assessor de dom Cláudio Hummes na Arquidiocese de São Paulo, professor e ouvidor da PUC-SP, "a nomeação não trouxe surpresas, porque ele tem um perfil muito ligado à administração e à Cúria Romana".
Para o teólogo jesuíta João Batista Libânio, professor da Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia de Belo Horizonte, Dom Odilo não era a figura mais profética no episcopado brasileiro. Ele prefere classificar o novo arcebispo como institucional em vez de conservador. "Dom Odilo reuniu requisitos importantes como eficiência, capacidade administrativa, coragem de tomar decisões e conhecimento da cidade", diz o teólogo. E comprova a sua tese: "Ele teve mais experiência organizacional, como executivo". "Agora, terá uma presença em todo o panorama nacional", conclui. Será do que a Igreja brasileira sente mais carência neste momento?
Na mesma linha vai o raciocínio de outro teólogo, Faustino Teixeira. Para ele, "a CNBB hoje não tem mais a presença pública que tinha nos anos 1980. Ela se adequou à conjuntura internacional ratzingueriana", afirma. "Não quer dizer que não existam vozes proféticas no episcopado brasileiro, mas eles não são designados para postos importantes na Igreja."
Por falar nisso, vale a lembrança da nomeação de D. Ladislau Biernaski como bispo da nova diocese de São José dos Pinhais, PR, e que tomou posse neste dia 19. Dom Ladislau Biernarski é reconhecido, respeitado e admirado pelo conjunto do movimento social paranaense por sua postura decidida e firme na defesa dos direitos dos mais pobres.
Dom Oscar Romero, mártir e santo do povo salvadorenho
No último dia 24 de março, centenas de comunidades América Latina afora celebraram o martírio de D. Oscar Romero, bispo de San Salvador, morto pelos militares enquanto celebrava a Eucaristia naquela tarde de 1980. Nestas celebrações e nas romarias que se realizam à capela onde foi morto e à casa em que morou, o povo revive a luta e o engajamento deste bispo que dedicou a sua vida aos pobres. Aos militares e aos opressores, sempre admoestava com o mandamento de Deus: "Não matem, eu lhes digo em nome de Deus! Não matem!"
Por ocasião do 27º do assassinato de D. Oscar Romero, a Igreja Luterana de El Salvador enviou carta à UNESCO solicitando que seja declarado patrimônio mundial da humanidade o local do martírio de monsenhor Oscar Arnulfo Romero. A justificativa da iniciativa se deve, segundo o bispo luterano que "a capela do hospital, onde o bispo se encontrava em 24 de março de 1980, quando o mataram, converteu-se num lugar de peregrinação visitado por delegações de todo o mundo, que chegam para conhecer o lugar do martírio e a residência de Romero." "Seu martírio impactou o mundo e o povo salvadorenho o declarou santo", diz o bispo Gómez.
Jon Sobrino, "notificado" pelo Vaticano, foi assessor de Oscar Romero.
TV pública, sim, 'TV Lula', não
O Ministro da Comunicação, Hélio Costa, anunciou na semana passada o projeto de criação de uma Rede Nacional de Televisão Pública, apelidada de "TV Lula". O projeto suscita uma forte discussão dentro do próprio governo e em diversos setores da sociedade.
Para Valério Brittos, doutor em comunicação pela Universidade Federal da Bahia, o projeto é válido desde que não seja uma televisão a serviço do governo de plantão. Em entrevista ao IHU On-Line afirma o seguinte: "Eu sou a favor de que o Estado brasileiro tenha uma Rede Nacional de Televisão Pública, à qual se possa levar um conjunto de conteúdos que sejam relevantes para a toda a sua sociedade. Esses conteúdos, por ser a televisão um meio massivo, não necessitam ser apenas educativos, mas uma mescla de educação, de entretenimento, de cultura. Deve ser uma grande rede de televisão, muito mais ampla, muito mais plural do que as redes de televisão convencionais mercadológicas, que são redes comerciais, visam lucros e são controladas por grupos privados com interesses privados. Portanto, eu defendo uma rede que preze o interesse público, que possa levar os diversos lados da informação, as grandes obras da cultura nacional, a diversidade da produção cultural brasileira, seja na literatura ou na música, enfim".
Portanto, a questão central é a de ser uma televisão realmente pública que contribua na democratização da comunicação em nosso país. Caso contrário, não fará sentido.