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DOM IVO LORSCHEITER

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Dom Demétrio Valentini *

O Brasil inteiro tomou conhecimento da morte de D. Ivo Lorscheiter. O interesse pela notícia atesta a importância que teve para todo o país a figura imponente deste bispo, que deixa um raro testemunho de cidadania, e um precioso legado de autenticidade cristã.
           Sua morte se deu na véspera do aniversário de sua ordenação episcopal. A sintonia de datas ressalta sua coerência de vida.  Assumiu a missão de bispo, e a cumpriu de maneira exemplar, morrendo como bispo, na Diocese de Santa Maria, de onde por trinta anos carregou no coração sua atenta solicitude pelo país, pela CNBB, pela Igreja toda, pelas causas importantes que sempre encontravam ressonância em sua agenda de pastor.

Foi nomeado bispo no final de 1965, quando o Concílio Ecumênico Vaticano Segundo estava nos últimos dias de seus trabalhos. Imediatamente partiu para Roma, como bispo eleito, para chegar em tempo de assinar os documentos do grande concílio que estava se concluindo.
            Esta pronta atitude de D. Ivo já sinalizava sua aguda consciência do valor das orientações conciliares, e da urgência de colocá-las em prática.  Entre elas, despontava a nova compreensão da missão episcopal, que recuperava o sentido de corresponsabilidade de todos os bispos pelo conjunto da Igreja, cada qual em sua Igreja Particular, mas assumindo juntos sua missão universal.

A recomendação do Concílio para que os bispos de cada país se organizassem em "Conferências Episcopais", como os bispos do Brasil já tinham feito,  indicava a forma prática de exercer esta corresponsabilidade episcopal de maneira organizada e eficaz.
            Pois bem, foi, sobretudo, a serviço da "Conferência Nacional do Bispos do Brasil",  a CNBB, que D.Ivo colocou seus talentos, sua capacidade de articulação, sua força de caráter, seu destemor apostólico, sua coragem evangélica e sua disposição de avalizar com a própria vida as convicções que o animavam.

A esplêndida trajetória da CNBB nas últimas décadas, deve a D.Ivo o suporte principal de sua atuação e da repercussão de suas posições no contexto brasileiro e no seio de toda a Igreja, sobretudo na América Latina.

A história registra como D. Ivo se constituiu em fiel da balança de uma longa série de mandatos na CNBB, caracterizados pela persistência e fidelidade, e ao mesmo tempo abertura aos novos desafios.

Em 1971 foi eleito Secretário Geral da CNBB, quando ainda era Bispo Auxiliar de Porto Alegre, enquanto seu primo D. Aloísio Lorscheider era eleito Presidente. Quatro anos depois, ambos foram reconduzidos a seus cargos. Passados estes dois mandatos, D.Ivo foi eleito Presidente da CNBB em 1979, enquanto D. Luciano se tornava Secretário Geral. Foram reeleitos em 1983 para mais um mandato, até 1987, quando D. Luciano passou a exercer o cargo de Presidente, e D. Celso assumiu a função de Secretário, também eles reeleitos em 1991, indo este segundo mandato até 1995.

Somando, são vinte e quatro anos de manutenção da mesma linha de ação pastoral e de posicionamento crítico diante do poder público, sobretudo no tempo da ditadura. Por sua contínua atuação, pela confiança que inspirava nos outros bispos, pelo respeito que impunha a todos, D. Ivo encarnava pessoalmente, de maneira exímia, a instituição que ele serviu com dedicação e competência.

Seus firmes posicionamentos lhe custaram a incompreensão de muitas pessoas, sobretudo por parte de expoentes dos governos militares. Não conseguindo neutralizar a influência que D. Ivo exercia, tentaram atingi-lo com golpes baixos, que acabaram ressaltando ainda mais sua grandeza de ânimo.

Ao mesmo tempo, no interior da Igreja, espíritos pequenos conseguiram impedir que ele fosse distinguido por Roma com alguma função especial. Por vezes se constata uma preocupante coincidência de posturas entre os que abusam do poder pelas ditaduras e os que controlam o poder na Igreja pelas intrigas.

Acabou ficando melhor assim. Aquele que podia, muito bem, ter sido grande arcebispo e eminente cardeal, morreu como bispo. Os títulos não lhe fazem nenhuma falta. Ao contrário, a ausência deles engrandece ainda mais sua biografia. Na memória de todos, permanecerá como D. Ivo, o Grande

 

         * Bispo de Jales, São Paulo

Created by sidney
Last modified 14/03/2007 15:07
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