EM MEMÓRIA DE DOM IVO LORSCHEITER, NO 7º DIA DA SUA MORTE
Para homenageá-lo, a IHU On-Line conversou, por e-mail, com Pe. José Ernanne Pinheiro e Pe. Virgílio Uchôa. Pe. Ernanne trabalhou durante um ano junto de Dom Ivo, ainda como presidente da entidade. Atualmente, Pe. Ernanne é assessor político da CNBB e secretário-executivo do Centro Nacional de Fé e Política Dom Helder Câmara. Durante todo o tempo em que Dom Ivo esteve à frente da CNBB, Pe. Virgílio Uchôa esteve ao seu lado. Conviveram durante os duros anos da ditadura, quando Pe. Virgílio viu Dom Ivo lutar contra os militares, mas como “um mediador sereno e eficaz nos momentos de conflitos”. Hoje, como secretário-executivo do Movimento de Educação de Base – MEB -, Pe. Virgílio relembra dos ensinamentos daquele que foi, durante 30 anos, bispo de Santa Maria.
Confira a entrevista.
IHU On-Line - Como os senhores avaliam o trabalho que Dom Ivo desenvolveu como secretário e presidente da CNBB?
José Ernanne Pinheiro - Quando cheguei em Brasília para ser assessor do setor “leigos” da CNBB, em 1986, Dom Ivo era o Presidente. De fato, só trabalhei diretamente com ele durante um ano. Mas, acompanhei seus passos no período anterior, a partir da arquidiocese de Olinda e Recife, onde trabalhei como coordenador da pastoral e, também, no período posterior, quando Dom Ivo era membro da Comissão Episcopal de Pastoral, responsável pelo Ecumenismo e Comunicação Social (1991-1998). Sempre considerei Dom Ivo um homem extraordinário. Conseguia conciliar aspectos aparentemente díspares: valorizava os critérios de discernimento, mas era sempre muito corajoso; fiel à Igreja, mas com sensibilidade política; perspicaz e sensato, concreto e com horizontes largos. Mais uma personalidade integrada do que um intelectual. Convencia mais pela transparência nas atitudes do que pelo brilhantismo das exposições.
Profundamente humano, era um grande irmão. Sabia valorizar os outros e ninguém se intimidava diante de seu tamanho físico e seu porte alemão. Seus limites eram, por vezes, sua força para a co-responsabilidade: quando escrevia seus textos, pedia para ser revisado pelos assessores, temendo pelo seu português por vezes germanizado. Estes valores foram uma graça para o exercício de sua missão num momento do Brasil em regime militar e da Igreja nos tempos de aplicação do Concílio Vaticano II. Profundamente amante da Igreja, a defendia ao defender seu povo diante dos abusos do poder militar. Colocava-se com ousadia e dignidade diante das autoridades civis, sempre sensível aos mais pobres e aos sem defesa. Doutor em Teologia no campo da eclesiologia, não temia lançar o serviço da pastoral em diálogo com o mundo. Durante seu mandato, como secretário e presidente da CNBB, surgem experiências significativas da nossa Igreja: animação dos Regionais da CNBB; o Conselho Indigenista Missionário (CIMI); a Pastoral da Terra (CPT); o estímulo às Comunidades Eclesiais de Base (CEBs); a pastoral urbana, etc.
Virgílio Uchôa - Dom Ivo foi a pessoa certa na hora certa durante o período que esteve à frente da CNBB, como secretário geral, durante oito anos, e como presidente, durante outros oito anos. A Igreja no Brasil emergia do Concílio Vaticano II. Aberto ao espírito de renovação, Dom Ivo esteve à frente do processo de planejamento pastoral, instrumento capaz de operar as decisões transformadoras, de pessoas e de instituições eclesiais, a serviço da sociedade. Esse processo de planejamento pastoral fortaleceu e consagrou a práxis da pastoral libertadora, que precedeu a posterior reflexão teológica sobre a libertação. Dom Ivo atuou no período mais difícil da ditadura militar, desde as arbitrariedades do regime, tais como torturas, prisões ilegais, perseguições a instituições e pessoas de da Igreja, desaparecimento de pessoas, até a progressiva, lenta e gradual mobilização da sociedade civil rumo à democratização do país. Foi presença e voz, firme e corajosa, a garantir os espaços de liberdade, da Igreja, das pessoas e das instituições. Foi um mediador sereno e eficaz nos momentos de conflitos.
IHU On-Line - Padre Virgílio, o senhor que esteve junto de Dom Ivo durante a ditadura militar, como foi a postura do então presidente da CNBB durante essa fase do governo brasileiro?
Virgílio Uchôa - Firme, corajosa, inflexível, jamais se recusando ao diálogo, porém, sem curvar-se diante do poder. Pagou um preço alto pela sua dignidade, pois jamais aceitou a chantagem, mesmo correndo o risco de difamação, tão comum contra várias pessoas na época do regime militar.
IHU On-Line - Mesmo contra a ditadura, Dom Ivo era respeitado pelos militares? Como o senhor vê o papel que Dom Ivo desempenhava nos bastidores da ditadura e no relacionamento com os generais?
Virgílio Uchoa - Sua grande credibilidade era devida a sua transparência, sua franqueza e firmeza em defender suas posições, sempre permeadas pela capacidade de ouvir e ponderar as situações para superar os conflitos.
IHU On-Line - Pe. Ernanne, em um texto seu sobre o Congresso, o senhor cita que D. Ivo sonhava em "criar um diálogo permanente em torno dos valores éticos, como o estudo de temas básicos em tramitação no Congresso". Para o senhor, que influência Dom Ivo teve na construção da Constituição de 1988?
José Ernanne Pinheiro - Cheguei em Brasília em pleno processo constituinte. Sob seu bastão, organizamos uma equipe de acompanhamento ao trabalho da elaboração da nova Constituição, na transição do período da ditadura militar para a busca da democracia. Anos de esperança e muita criatividade. A volta dos exilados com novas idéias, a sede de recuperar a liberdade perdida durante os anos do regime militar e o desejo de construir uma democracia participativa desafiavam a Igreja a continuar bem presente nos caminhos que eram desbravados para o Brasil. Dom Ivo deu o tom e a mística deste trabalho. Alguns exemplos concretos:
Enviou aos parlamentares constituintes a proposta elaborada pelo Assembléia Nacional da CNBB para a elaboração da nova Carta Magna e os convidou para um debate na sede da entidade. Mais de cem parlamentes responderam ao convite. Foi uma sessão brilhante em que o próprio Dom Ivo coordenou a reflexão – a contribuição da Igreja para a consolidação da democracia em nossas terras. Na introdução, diz o texto da CNBB: “Como membros da sociedade brasileira e de uma instituição que, fundada na mensagem e na obra de Jesus Cristo, tem nesta mesma sociedade presença significativa, não podemos deixar de dar nossa contribuição para o grande debate nacional que ora se aprofunda”.
Entregou à equipe de acompanhamento constituinte uma missão: entrevistar diariamente um parlamentar para a Rádio Medianeira da diocese de Santa Maria, sua diocese sobre a marcha da constituinte. Esta entrevista era executada por ocasião de um “café da manhã” e transformada em subsídio irradiado pelo Brasil afora, via telex. Até os Bancos da Amazônia se colocaram em disponibilidade para fazer chegar esta matéria às comunidades populares. Sem dúvida, uma raiz para as emendas populares com temáticas de máxima importância para o “novo” no processo constituinte – o povo presente e dizendo sua palavra.
IHU On-Line - Como os senhores avaliam a "Gestão Lorscheiter", ou seja, o tempo em que Dom Aloísio e Dom Ivo estiveram a frente da CNBB?
José Ernanne Pinheiro - Acho que os dois primos tinham características comuns: generosidade, personalidades sólidas, solidez teológica, dedicação e persistência na doação, material de primeira qualidade para a construção do Reino de Deus. Os dois primos eram amigos embora diferentes no estilo de exercer o ministério episcopal. Um completava o outro. Os dois primos na direção da CNBB contribuíram para que o modelo de Igreja do Concílio Vaticano II se consolidasse entre nós.
No entanto, ao lado deles havia um grande grupo de bispos na mesma perspectiva eclesial, num clima de colegialidade muito forte. A safra de bispos do Vaticano II no Brasil tinha uma consciência missionária aguçada: Dom Helder Câmara, Dom Paulo Evaristo Arns, Dom Luciano Mendes de Almeida, Dom Antônio Fragoso, Dom Cândido Padin, Dom Luiz Fernandes, e tantos outros. Havia um clima de confiança entre eles muito salutar para a gestão eclesial. De um lado, viviam numa Igreja em renovação, e, por outro, num Estado militarizado em regime ditatorial. Esta tensão dialética leva a provocar um clima de criatividade pastoral a partir das comunidades eclesiais, em comunhão com seus bispos. E esta realidade pastoral desafiava os pastores na sua sublime missão.
Um fato ilustrativo do clima eclesial, vivido na época, explicita a confiança e co-responsabilidade que os envolvia; no caso entre Dom Helder e Dom Ivo: O clero da arquidiocese de Olinda e Recife estava no seu retiro anual no tradicional Seminário de Olinda. Um belo dia chega uma secretária ao lugar do retiro, avisando a Dom Helder que a polícia tinha invadido o Secretariado, com ordem de inspeção e apreensão de documentos. Dom Helder chama o bispo auxiliar e a mim, como coordenador da pastoral, e fomos ao Secretariado da Pastoral. Percebemos ao chegar dois grupos de militares: um na entrada da casa, outro já em concretização da missão. Nosso arcebispo cumprimenta cada militar e pergunta quem é o responsável porque quer que ele assista a busca de diálogo, por telefone, com as autoridades militares. Como não conseguiu, toma outro caminho. Telefonou para Dom Ivo comunicando o fato e pedindo que avisasse ao Vaticano que os militares brasileiros estavam violando “segredos de estado” reservados à Santa Sé(questões matrimoniais).
Conclusão: cinco minutos depois, os militares recebem ordem de recolher. Se Dom Ivo não conseguiu agir em tão pouco espaço de tempo, foi o referencial para uma solução co-responsável.
Virgílio Uchôa - Tudo que se possa analisar a respeito de Dom Ivo deve sempre ter como contra partida a referência da pessoa de Dom Aloísio. Temperamentos diferentes completavam-se numa harmonia perfeita, despertando o senso de co-responsabilidade dos bispos (colegialidade), imensa capacidade de articular maiorias e minorias episcopais e os diferentes pontos de vistas e tendências pastorais, sempre com aquela marca já descrita na primeira pergunta. Os dois souberam, com sabedoria, construir a unidade do episcopado a serviço do povo brasileiro, agindo com verdade e caridade.
IHU On-Line - Como os senhores vêem a relação que Dom Ivo tinha com o Vaticano?
José Ernanne Pinheiro – Por ocasião do Seminário comemorativo dos 50 anos da CNBB, Dom Ivo foi convidado a dar um depoimento. Nele, Dom Ivo conta vários fatos interessantes do seu contato com João Paulo II, sobretudo por ocasião de sua viagem ao Brasil em 1980: a elaboração dos discursos do Papa e a colaboração dos bispos, as conversas que teve com o Papa durante os 12 dias de viagem pelo País. E termina dizendo: “O Papa tem o temperamento dele, mas ele se esforçava muito para se inserir na Igreja do País por meio dos bispos. Eu quis relatar estas coisas porque eu vivi”. Também dá um belo depoimento sobre João Paulo I que esteve em Santa Maria, antes de ser Papa, quando era Patriarca de Veneza. Dom Ivo era um homem muito eclesial; seu amor à Igreja era alicerçado nas pedras sólidas da verdade e veracidade.
Virgílio Uchôa - Dom Ivo era um homem da Igreja na sua totalidade. Convivia e assumia como suas a força e a fraqueza das instituições, inclusive do Vaticano, pois acreditava que é nesses limites que a força de Deus e do evangelho de Jesus Cristo atuam.
IHU On-Line - Quais são os ensinamentos que Dom Ivo deixou para a CNBB de hoje?
José Ernanne Pinheiro - Na minha leitura, Dom Ivo foi um profeta na melhor expressão dos profetas bíblicos, na grande feitura da tradição da Igreja da América Latina nos anos de chumbo da ditadura militar. Seus ensinamentos são sobretudo lidos através dos seu testemunho de vida. O maior legado: a liberdade do evangelho. Seu lema poderia ter sido: “Para vos tornardes livres, Cristo vos libertou”, na expressão de São Paulo aos Gálatas. Era um homem de fé. Sua liberdade interior lhe dava substrato para enfrentar situações complicadas. É bem verdade que pagou caro com seu estilo direto e transparente: sofreu incompreensões, foi mal interpretado, perseguido, injuriado, caluniado. No entanto, pela fé, qual Abraão, correu riscos, mesmo sem ver claro por vezes o mapa do caminho.