Homilia de Dom Mauro Montagnoli em ocasião da abertura do 1º Curso de Formação Política para cristãos/as leigos e leigas
Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB
Centro Nacional de Fé e Política “Dom Helder Câmara” – CEFEP
Homilia de abertura do 1º Curso de Formação Política para cristãos/as leigos e leigas
15/01/2006
Hoje celebramos o 2º Domingo do tempo comum. Nos três anos do ciclo litúrgico, o domingo depois do Batismo do Senhor tem como evangelho um trecho do testemunho de João Batista diante de seus discípulos e a vocação dos mesmos que são chamados por Jesus. É o Batista que encaminha os discípulos a Jesus, o Cordeiro de Deus, talvez fazendo referência ao cordeiro pascal, o servo sofredor de Isaías. Os discípulos buscam p Messias para permanecer com ele, lá onde está. Encontrando-o, eles permanecem com ele. É tão forte o encontro que até a hora ficou gravada na memória e no coração do evangelista: 4 hora da tarde. A experiência é profunda e leva o discípulo a convidar outros para permanecer com Jesus.
A 1ª leitura nos apresenta a vocação profética de Samuel. Ele é uma figura chave na história do povo de Deus do Antigo Testamento. Samuel exerceu um papel importante, como líder, durante a transição da época dos juízes para a época dos reis. A narração da vocação de Samuel mostra que o chamado recebido tem origem em Deus. O menino custa a entender o chamado. Ajudado pelo sacerdote Eli soube escutar a Deus e tornou-se colaborador eficaz na história de Deus com seu povo. Soube dar ouvido à voz do Senhor, foi capaz de transmitir essa palavra e, ainda mais, transformá-la em ação. Essa é a vocação do profeta.
A 2ª leitura, da 1ª carta ao Coríntios, trata de uma das questões particulares abordadas por São Paulo, que é a fornicação. Os coríntios tinham dificuldade de compreender e aceitar a teologia do corpo apresentada por São Paulo. Este exorta que o corpo não para a imoralidade, mas para o Senhor, e o Senhor é para o corpo. E convida os cristãos de Corinto a saberem usar a liberdade. Recorda que o corpo é santuário do Espírito Santo e a pessoa não se pertence mais e, por isso, não pode fazer com o corpo o que quiser. Deus resgatou as pessoas por um alto preço, que foi a entrega do seu Filho Unigênito para a salvação de todos.uma vez resgatados, os cristãos devem glorificar a Deus.
Para responder ao apelo de Deus é preciso que a pessoa esteja atenta à sua voz e se deixe entusiasmar pela missão que Ele lhe confia. Nesse entusiasmo ela se entrega de corpo e alma.
Hoje, também estamos para iniciar o 1º Curso de Formação Política para os cristãos/as leigos e leigas, curso promovido pelo Centro Nacional de Fé e Política “Dom Helder Câmara”, fundado em 21 de fevereiro de 2005.
O objetivo desse curso é formar cristãos/as, leigos e leigas, para a missão política, favorecendo-lhes a aquisição de competência e habilitação para agir no complexo campo da política. Assim poderão participar mais concretamente na construção da sociedade justa e solidária. O curso será ministrado à luz do Ensino Social a Igreja e das Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil.
O Concílio Vaticano II, na Constituição Pastoral Gaudium es Spes, ressalta o papel importante que a Igreja tem nas relações com a comunidade política e se manifesta como “sinal e salvaguarda da transcendência da pessoa humana”. (n. 76)
O Concílio reafirma a importância da participação política os cristãos na construção da sociedade justa e fraterna e confirma essa participação como um serviço. “A Igreja louva e aprecia o trabalho de quantos se dedicam ao bem da nação e tomam sobre si o peso de tal cargo, em serviço dos homens”. (GS 75)
A Igreja começa a viver um novo tempo.
Na América Latina toma grande impulso essa inspiração do Concílio. O que leva o episcopado latino americano a afirma categoricamente, em Puebla, 1979: “A fé cristã não despreza a atividade política; pelo contrário, a valoriza e a tem em alta estima”. (P 514)
E mais ainda, define: “A política partidarista é o campo próprio dos leigos (GS 43). Corresponde à sua condição leiga constituir e organizar partidos políticos, com ideologia e estratégia adequada para alcançar seus legítimos fins”. (P 524)
É uma afirmação ousada que, seguindo as indicações do Concílio Vaticano II, cem definir a unidade que deve haver entre a fé e a prática política: “Esse divórcio entre a fé que professam e o comportamento cotidiano de muitos, deve ser contado entre os mais graves erros do nosso tempo” (GS 43). A separação entre ambas, fé e política é considerada pelo Concílio com um verdadeiro pecado.
Após o Concílio Vaticano II, a reflexão teológica nos Sínodos e nas Conferências episcopais, vai destacar essa realidade: a estreita conexão entre evangelização e animação das realidades terrestres, promoção humana, desenvolvimento; a exigência de profunda transformação na sociedade e a luta difícil contra as estruturas injustas, consideradas como verdadeiro “pecado social”.
O documento de Puebla afirma categoricamente a necessidade de o leigo e leiga influenciarem a sociedade através da sua ação e participação na vida social e política, e aponta o caminho para se conseguir isso. “O leigo encontra na doutrina social da Igreja os critérios adequados, à luz da visão cristã do homem... a hierarquia lhe garantirá sai solidariedade, favorecendo sua formação e sua vida espiritual e estimulando-o em sua criatividade...” (P 525)
Depois de Puebla aconteceu o Sínodo dos Bispos em 1987 que tratou exatamente da “Vocação e Missão dos leigos na Igreja e no mundo”. No ano seguinte o Papa João Paulo II publicou a exortação apostólica Christifideles Laici e faz essa advertência aos cristãos, em 1988: “os fiéis leigos não podem absolutamente abdicar da participação na “política”, ou seja, da múltipla e variada ação econômica, social, legislativa, administrativa e cultural, destinada a promover orgânica e institucionalmente o bem comum”. (CL 42)
Em Santo Domingo, 1992, o tema é retomado de maneira bem forte e os próprios bispos estabelecem para si próprios uma tomada de posição em clara: “Os pastores procuraremos, como objetivo pastoral imediato, fomentar a preparação dos leigos que se sobressaiam no campo da educação, da política, dos meios de comunicação social, da cultura e do trabalho”. (SD 96)
É um compromisso solene assumido em assembléia. Esse compromisso precisa ser retomado com veemência e coragem.
Seguindo essa mesma linha de pensamento a CNBB está empenhada em animar e formar os cristãos/as leigos e leigas, a fim de poder assumir essa sua tarefa específica e tão importante. Em 1999, no documento Missão e Ministério dos cristãos leigos e leigas, doc. 62, afirma: “Não há dúvida de que a tarefa de promover a justiça e a paz, de efetivamente prestar solidariedade e serviço aos irmãos, especialmente aos mais necessitados, é em primeiro lugar responsabilidade dos cristãos que têm competência na economia, na política, nas relações internacionais, no sindicato, nas organizações assistenciais, nos movimentos populares, nas pastorais sociais”. (n.61)
É uma ação própria e específica do cristão leigo: “Aos cristãos leigos compete uma atuação insubstituível na construção da sociedade justa e fraterna, a partir de sua condição e ambiente próprios”. (126)
É preciso estar presente nos âmbitos de decisão e de formação das consciências para que o projeto do Reino de Deus seja viável e eficaz. “A transformação da sociedade não será possível sem as transformações das estruturas de poder hoje existentes. Por isso, além da saudável e necessária participação de cristãos na política partidária, é necessário incrementar os grupos de reflexão e de acompanhamento das atividades políticas, exercendo cada vez mais a aproximação entre o compromisso de fé e o exercício da justiça por meio dos organismos de representação popular. Os grupos de Fé e Política devem ser incentivados e preparados...” (n.132)
Nas Diretrizes da Ação Evangelizadora no Brasil, 2003-2006, esse tema está bem presente e de novo apela-se para a consciência do cristão leigo e leiga a fim de assumir essa tarefa desafiadora. “Levados pela caridade, os cristãos são também impulsionados pelo Espírito a participar da vida política, para que a própria organização da sociedade seja cada vez mais impregnada de valores evangélicos”. (n. 42)
Presenciamos hoje o enfraquecimento da política frente ao poder econômico que pretende impor suas decisões à sociedade e substituir as instâncias políticas, com o grave risco de esvaziamento da democracia. Para a construção da sociedade justa e solidária é indispensável a participação política dos cristãos leigos.
Visto a importância da matéria, o documento dedica toda uma sessão (ns. 168-175) à participação política. Salienta a importância da Pastoral da Juventude na formação das futuras lideranças sociais e políticas. (cf. n. 198)
Em vista disso tudo, a CNBB se compromete a contribuir nesse processo através do curso de formação que ora iniciamos... “A educação dos católicos à solidariedade e ao engajamento social pode ser adquirida através de formação na ação, segundo modalidades já experimentadas ou outras a criar. Por exemplo: constituição ou apoio a grupos e escola de” ‘Fé e Política’; iniciativas de formação social e política, particularmente dos jovens...” (n. 201)
Pedimos ao Espírito Santo que derrame suas luzes sobre essa nossa iniciativa. Só assim teremos a certeza de estar contribuindo efetivamente na construção da sociedade querida por Deus e pela qual Jesus Cristo deu a vida até a última gota de sangue: uma sociedade solidária, fraterna, que vivencie os valores evangélicos e que inclua todas as pessoas, porque são filhos e filhas de Deus. E que Maria Santíssima mantenha viva em nós a disponibilidade ao Espírito e nos ajude a discernir os sinais da presença do Deus que “está realmente no meio de nós” (1 Cor 14,25).
Brasília, 15 de janeiro de 2006
Dom Mauro Montagnoli
(Bispo de Ilhéus-BA, presidente do CEFEP)