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Centro Nacional Fé e Política Dom Helder Câmara - CEFEP

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Homilia de D.José Mauro Pereira Bastos, durante o seminário promovido pelo CEFEP

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Queridos irmãos e irmãs,

           

          A Páscoa que celebramos, nos introduz no mistério de um Deus que assumiu a nossa condição humana até as últimas conseqüências, vencendo a morte e nos garantindo a vida plena e abundante.

O cenário atual que estamos refletindo neste encontro, pode nos colocar em uma postura muito semelhante a dos apóstolos no Evangelho de hoje: inseguros, com medo e com as portas fechadas.

Os desafios da globalização, a exclusão crescente, a supremacia do econômico sobre o humano, a relativização da vida, o enfraquecimento da democracia, o descrédito das instituições, a corrupção, o desencantamento diante de tantos sonhos fracassados, promessas não cumpridas, projetos não realizados... Este cenário muitas vezes nos deixa inseguros e com medo, conduzindo-nos ao risco da desesperança que nos conduz a fechar as portas, impedindo o sopro do Espírito de entrar e realizar em nós e através de nós o “Novo de Deus”.

Neste contexto somos chamados a acolher a visita do Ressuscitado que vai além das portas fechadas, que se coloca no meio dos seus seguidores e afirma: “A paz esteja com vocês”. Em seguida, mostrou-lhes as mãos e o lado. Aquele que ressuscitou é o mesmo que morreu, o vitorioso é o mesmo que experimentou o fracasso. Com este gesto, Jesus afirma que toda vida tem seu preço, que toda vida entregue gera vida e que se o grão de trigo não cair na terra não produzirá frutos.

Esta é a mística que deve sustentar nossa ação evangelizadora nos desertos do mundo, nosso empenho pela justiça, nossas lutas em prol do Reino já inaugurado, mas ainda não consumado. Somente uma espiritualidade centrada no mistério Pascal, pode nos levar a superar os obstáculos e as contradições da história. Os tempos sombrios nos exigem clareza em nossas causas e firmeza em nossas convicções. Somente quando temos clareza de que a causa é maior do que nós, somos capazes de morrer por ela, pra que a vida não morra.

“Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio”. Este foi o último mandato do Ressuscitado à sua Igreja. A Igreja nasce do “Ide” de Jesus, por isso ela nasce não para si, mas para a humanidade. Necessitada da “Boa Notícia” manifestada sobretudo em Jesus.

O cenário atual, necessita de uma crítica profunda e profética que nos assusta, mas não nos abate; que nos faz sofrer, mas não mata nossa esperança, que nos abala, mas não nos impede de continuar.

Como Igreja do Ressuscitado, e nós como seus membros, somos chamados, por fidelidade a Cristo, a continuarmos sua missão no mundo, manifestando sua misericórdia, seu serviço, sua entrega, sua salvação.

Uma Igreja capaz de ir ao encontro da humanidade sofrida, expressando em suas angústias e sofrimentos a solidariedade de Deus. Uma Igreja capaz de tornar o Evangelho, resposta de Deus aos clamores dos homens e mulheres que continuam excluídos da roda e do direito à vida plena.

“Bem aventurados os que creram sem terem visto”. Nossa missão é semear e nem sempre colher. Muitas vezes a fragilidade de nossas ações, parecem não significar muito diante das forças contrárias; muitas vezes gostaríamos que as transformações fossem mais rápidas e que os processos concluíssem em menos tempo. É preciso lançarmos  as sementes, na certeza de que esta é a nossa missão e que o tempo de Deus, o tempo do processo, nem sempre coincide com o nosso tempo.

É pela fé que trabalhamos, conscientes de nossa missão no mundo como seguidores do Ressuscitado, que venceu a morte, venceu o mundo, aceitando o preço da condenação injusta, assumindo como servo sofredor, os sofrimentos da humanidade.

Somos chamados a ser não apenas seguidores, mas testemunhas do Deus vivo, vitorioso e Ressuscitado, que trás em si as marcas da morte. Somos chamados a identificá-Lo, a encontrá-Lo e a segui-Lo, em todos aqueles que trazem na vida as marcas da morte, causada pela miséria, pela exclusão, pelo descaso.

Somos convocados a estar do lado daqueles com os quais ele mesmo identificou-se, os pobres: “Tive fome, tive frio, estive preso...” Como seguidores do Crucificado Ressuscitado somos chamados a colocar a vida nas marcas da morte.

No cenário político mundial e nacional, marcado por tantas contradições, reduzindo cada vez mais os espaços conquistados pela democracia, gerando novas formas de exclusão, justificando situações injustificáveis, como cristãos somos chamados a abrir as portas, a vencer o medo, a retomar a luta, como homens e mulheres que preparam o mundo para celebrar a Páscoa do Ressuscitado.

Nossa força e esperança, nascem da promessa feita por Jesus: “Eu estarei convosco todos os dias. E a Igreja continua seu peregrinar implorando como os discípulos de Emaús; “Fica conosco Senhor”.

 

Dom José Mauro Pereira Bastos em nome da Comissão Episcopal para o Laicato da CNBB

Created by sidney
Last modified 26/04/2006 15:08
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