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Venezuela: Constituinte tem saldo de 8 milhões de votos e dez mortos

por Pietra Soares última modificação 31/07/2017 16:37

Em geral, nas eleições venezuelanas existem candidatos de vários partidos e vertentes políticas, porém os que participaram da Assembleia Constituinte eram todos aliados ao chavismo. Os opositores não fizeram parte do processo por considerá-lo inconstitucional. O período em que as urnas estiveram abertas foi além das 12 horas de votação previstas.

De acordo com o governo, a eleição das 545 pessoas que vão escrever uma nova Constituição para a Venezuela foi um sucesso. Já a oposição afirmou que foi um grande fracasso e que apenas participaram 2,4 milhões de pessoas. Segundo os números oficiais do Conselho Nacional Eleitoral (CNE) desta segunda-feira (31), mais de oito milhões de venezuelanos (41,53%) votaram neste domingo (30) na eleição da Assembleia Constituinte convocada pelo presidente Nicolás Maduro.

No entanto, de acordo com o Datanálisis, uma das mais importantes empresas de pesquisas da Venezuela, 72% da população eram contra a eleição. Brasil, Espanha, Panamá, Canadá, Colômbia, Reino Unido, Argentina e Peru manifestaram oficialmente que não reconhecem a eleição da Assembleia Constituinte venezuelana.

O Mercosul analisa a expulsão da Venezuela do bloco após a realização da eleição para a Constituinte. Com o pleito de hoje o governo quer escrever uma nova Constituição para o país e assim sepultar a que foi estabelecida pelo ex-presidente Hugo Chávez.

As vítimas da violência política

A violência política causou a morte de pelo menos 10 pessoas. Dezenas ficaram feridas e, de acordo com a organização não-governamental Fórum Penal, cerca de 96 foram presas. A maioria dos crimes aconteceram no interior do país, sobretudo no estado Táchira, que faz fronteira com a Colômbia, e em Mérida, na região dos Andes venezuelanos. Um candidato e um dirigente político estão entre as vítimas. Estas mortes equivalem a mais de 10% das que aconteceram desde o início dos protestos contra o governo, em abril deste ano.

A tensão aumentou durante a última semana, sobretudo após o ministro de Interior e Justiça anunciar a proibição das manifestações durante e depois do dia da votação. A convocação feita pelos opositores para a população sair às ruas para protestar neste fim de semana foi outro detonador da violência. A maioria das mortes foram causadas por armas de fogo, apesar da proibição do porte de armas em todo o país até esta terça-feira (1°).

Para a oposição, a Assembleia Constituinte já começa manchada de sangue. De acordo com o ministro da Defesa, o general Vladimir Padrino López, nenhuma das mortes deste domingo estão relacionadas com a ação das Forças Armadas. Já um dirigente do Partido Socialista da Venezuela, do qual a cúpula do governo faz parte, informou que nenhuma pessoa morreu por causa do acirramento político.

A posse dos eleitos

Dentro de um período de até 72 horas após o anúncio dos resultados os candidatos eleitos tomarão posse, de acordo com o Conselho Nacional Eleitoral. O governo informou que os novos constituintes irão trabalhar no Palácio Legislativo, mesmo lugar onde legislam os deputados opositores, eleitos em dezembro de 2015.

A coligação opositora Mesa da Unidade Democrática convocou manifestações para os próximos dias, sobretudo quando a Assembleia Constituinte tomar posse. Esta eleição consolida o início de uma nova etapa na política venezuelana com a institucionalização de poderes paralelos.

Solução para os problemas na Venezuela?

É pouco provável que ao escrever uma nova Constituição os problemas do país sejam resolvidos. Sobretudo porque no nível político o povo não foi consultado previamente e tampouco houve a participação do setor opositor. As mortes das últimas horas demonstraram que a intolerância política e social aumentou.

Já no setor econômico é pouco provável que algo mude, sobretudo se levarmos em conta a profunda dependência da Venezuela ao petróleo. Desde que tomou posse, Maduro afirma que quer diversificar a economia. Até o momento essa meta não foi alcançada.

Os Estados Unidos oxigenam a economia venezuelana graças às importações de petróleo. Porém o governo do presidente Donald Trump ameaçou aplicar sanções ao país caso a eleição da Constituinte fosse realizada. Se isso acontecer, o estrangulamento da economia causaria efeitos imediatos e o povo venezuelano seria o mais afetado.

Esta reportagem foi publicada originalmente na RFI Brasil.

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